domingo, 2 de dezembro de 2018

Sob a Luz dos Sete para Ler


Você encontra informações sobre Game Of thrones no mundo internet de todas as formas: podcats, site, fóruns, grupos... Enfim, é muita gente pensando, torcendo, teorizando, vivendo essa série que é sucesso mundial lançada em 2017.
E foi arrebatador – como disseram aqueles que já conheciam os livros, desde lá  em 1996 quando o primeiro foi lançado.
Eu resolvi ler os livros quando falaram sobre aquela diferença entre série e livro, mas confesso que demorei. Fiquei protelando o quanto podia, até que a curiosidade foi mais forte e me vi lendo o Game Of Thrones e ficando impressionada com o calhamaço que é (só de livros publicados são 4228 fucking páginas). Mas fui lá, abençoada pela Mãe, comecei e fui indo e percebi que Martin é detalhista ao extremo: uma subida ao Ninho da águia, sede da casa Arryn, lar de Lysa Arryn e Robert Arryn leva umas 3, 5 páginas com descrições  em detalhes da caminhada, até da forma como o casco do burro bate na terra fofa ao subir. Pois é gente, é uma riqueza de detalhes, nomes repetidos, uns nomes com mais consoantes que vogais, fora os que se repetem.  Sem contar as  tramas e subtramas com tudo isso aí e você tendo que lembrar quando, onde e como.
Não é uma leitura das mais fáceis, vocabulário rebuscado e muita coisa ao mesmo tempo. O segundo, lançado em 1998, a Fúria de Reis eu li mais rápido, mas meio que passou batido. O terceiro, Tormenta de Espadas, lançado em 2000 (note aí um intervalo de 2 anos entre esse e o outro) e suas quase novecentas páginas incríveis. E levei um tempão também, não nego.
Mas eu empaquei mesmo no Festim dos Corvos lançado em 2005, eu levei... Um ano para ler o livro. Sim, eu sei, SHAME! SHAME! SHAME!
Estava toda enrolada com todas as leituras, meio sem ânimo, totalmente com preguiça.
Eu leio dois livros ao mesmo tempo, respeito o meu ritmo, eu já sou lerda, se colocar mais eu levo dois invernos em Westeros pra acabar. Mas confesso que nesse eu me superei. Estava meio brocha com as coisas que eu gostava, dentre as quais a leitura e fui deixando pra lá.
Tirei férias esse ano e coloquei como meta, terminar a leitura. Fui avançando mas a leitura como disse acima é confusa, cheia de entremeios e não aparecem os principais: Jon, Tyrion e Daenerys. Lembrando que esse livro primeiramente foi apresentado por George Martin a editora com 1527 páginas e declarado impublicável, aí ele teve a ideia de dividi-lo em dois. Só que apareceu uma ideia melhor ainda, dividi-lo geograficamente: o primeiro se passa no Sul, o segundo em Essos e as histórias acontecem simultaneamente. Nesse sentido eu não liguei muito que os ditos grandes nomes da série não estivessem ali, porque eu tenho verdadeira paixão pela dupla Jamie e Cersei. E depois da drástica mudança de caráter de Jamie no livro anterior, minha admiração pelo cara só aumenta, mesmo ele continuando um pouco escravoceta , mas começam a brilhar algumas mudanças nesse personagem.
Ouvi que esse era o livro da Cersei. E é. A personagem está mais visceral que nunca, quase enlouquecida pela sede de poder. Cega para qualquer coisa que não seja ascender ao trono através do filho que segundo ela está protegendo. A profecia de Maggy:
- Podeis fazer três perguntas - disse a velha, depois a sua bebida. - Não ireis gostar das minhas respostas. Perguntai, senão fora convosco.
Vai, pensou a rainha que sonhava, controla a língua e foge. Mas a rapariga não tinha suficiente bom senso para sentir medo.
- Quando é que me caso com o príncipe? - perguntou.
- Nunca. Casareis com o rei.
Sob os seus caracóis dourados, o rosto da rapariga enrugou-se de perplexidade. Durante anos, depois daquilo, pensou que aquelas palavras queriam dizer que não casaria com Rhaegar até depois do pai, Aerys, ter morrido. 
- Mas vou ser rainha? - perguntou o seu eu mais novo.
- Sim. - A malícia cintilou nos olhos amarelos de Maggy. - Rainha sereis... até chegar uma outra, mais nova e mais bela, para vos derrubar e roubar todo aquilo que vos for querido. 
A ira relampejou na cara da criança.
- Se ela tentar, mando o meu irmão matá-la - Nem mesmo então parou, sendo como era uma criança obstinada. Ainda lhe era devida mais uma pergunta, mais um vislumbre da vida que a esperava. - O rei e eu teremos filhos? - perguntou.
- Oh, sim. Ele dezesseis, e vós três. 
Aquilo não fazia sentido para Cersei. O polegar latejava onde o cortara, e o seu sangue pingava no tapete. Como pode ser isso?, quis perguntar, mas já não tinha mais perguntas.
Porém, a velha ainda não terminara com ela.
- De ouro serão as suas coroas e de ouro as mortalhas - disse.
E essa profecia dispara o estado de alerta da rainha que começa a se livrar de todos a sua volta mantendo o rei Tommen perto de si para que tenha poder.
O crescimento de Jamie na história é maravilhoso. De um pau mandado da irmã vemos aquele cara que salvou Brienne do urso e perdeu a mão indo de encontro a si mesmo, seus valores, dando até atenção até a seus filhos.
Brienne tem tanta coisa nos livros! Ela é o fio condutor da ação e seguindo com sua promessa de achar Sansa que foi feita a Catleyn Stark ela vaga por campos perigosos com homens que sobraram da guerra e seguem sem um rei ou ordem destruindo tudo e todos em seu caminho.
Arya Stark e a Casa dos Homens sem rosto satisfaz muito mais nos livros, do que na série. Ela está lá se preparando para “fazer” aquela lista que a acompanha, mesmo que tenha deixado de ser Arya, para ser Ninguém.
Mas o grande diferencial mesmo é a presença de Lady Stoneheart, isto é o que sobrou de Catelyn Stark depois do casamento vermelho em que foi jogada e ficou três dias no rio. Quando foi encontrada pela Irmandade que inicialmente lutava pelos Lannisters em nome do rei Robert, Beric Dondarion a encontram mas como havia se passado muito tempo, Beric doa sua última vida (ele só pode ressuscitar 7 vezes).
O que ressurge não é nem Catelyn, a pele machucada e as marcas de unha feitas no próprio rosto por ela em desespero ao ver o filho morto permanecem, além do corte de “orelha a orelha” feito pelos Frey e para tornar tudo mais aterrorizante (ou interessante) ela não fala apenas alguns sussurros quando tampa a garganta.
Quando eu li essa parte, pensei o quanto isso ficaria foda na série. O quanto seria fantástico ter ali algum tipo de vingança pelo casamento vermelho que com certeza nenhum fã de GoT passou incólume!
Outra coisa que é bem diferente no livro é Dorne. Arianne Martell ficaria perfeita na tela. Aliás, Dorne é cheio de protagonistas maravilhosas que enriqueceriam o empoderamento feminino já característico da obra. Outra parte que gostei também.
Tem muita coisa que foi para a série, como a história dos Altos Pardais que servem a Cersei para acabar com o começo do poder que Marguery estava exercendo sobre Tommen. Mas, quem viu a série e leu o livro sabe que o feitiço, virou contra o feiticeiro. Aliás, rainha.
O livro é todo inteligente. Inteligentemente complicado. Uma riqueza muito grande de detalhes e uma história muito boa, mas muito cheia de coisas que você tem que se esforçar para não cair na armadilha de só assistir a série. Mas se você decidir só assistir a série, tá tudo bem, você não é menos fã não. Não existe menos fã por isso, ou mais fã. Fã é fã. Você gosta torce e conversa sobre e quando você faz isso, colabora para que todos façam mais coisas com conteúdo para nosso deleite.
Mas enfim, o livro é bom. Vai te dar sono, você vai ficar meio disperso mas não menos ansioso para poder ler o próximo. Bem, foi isso que aconteceu comigo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Stephen é o King


Com livros que venderam quase 400 milhões de cópias, é o nono autor mais traduzido do mundo.
King é sempre citado quando o assunto é terror e suas histórias fazem parte da vida de muitas pessoas e se tornou algo marcante. A escrita tem uma assinatura, reconhecida de imediato pelos fãs. Com uma vida pessoal que conta com a história de ainda criança ter presenciado um acidente horrível em que um dos seus amigos ficou preso em uma ferrovia e foi atropelado (que reza a lenda isso liberou o dark side do autor para suas criações de terror, mas ele mesmo nega), e ter sido alcoólatra e dependente químico – e por isso não se lembra de ter escrito seus grandes sucessos como Cujo e It, tamanho era o problema com essas substâncias. Fora ter sido atropelado por um motorista distraído em uma de suas caminhadas: sofreu um traumatismo craniano, fraturas múltiplas em uma das pernas, perfurações em um dos pulmões e foi submetido a três cirurgias.
O que importa é que o cara tá vivão e sua obra sempre em destaque inclusive no queridinho de todos, Netflix, com os filmes 1922, O Nevoeiro, Conexão Mortal, Celular, Under The Dome, Pacto Maligno, Cemitério Maldito, Christine O Carro Assassino e Jogo Perigoso (Gerald’s Game), baseado no romance homônimo de 1992.
Numa tentativa de reacender o fogo do casamento , Gerald (Bruce Greenwood) e Jessie (Carla Gugino) – que aliás está em outra empreitada de terror de sucesso  na Netflix  A Maldição da Residencia Hill (que assim que eu tiver um pingo de coragem assisto de venho comentar com vocês) – viajam para sua casa de campo, num fim de semana que ninguém estará por perto, para realizarem fantasias sexuais dele.
Quando está algemada na cama enquanto o esposo toma Viagra...
Aí dá tudo errado!
O cara morre deixando Jessie presa a cama, enquanto revê toda a sua vida ao lado de uma projeção de si mesma e do marido.
Sentindo dor, sede e desespero ela conversa consigo mesma e o marido tentando achar razões para alguns porquês de sua vida. O filme tem alguns gatilhos emocionais fortes e é um filme com muitos simbolismos e verdades ditas na cara. Aquelas verdades que nos esquivamos a vida toda para fugir da dor/realidade e ficarmos confortáveis em nossa bolha preguiçosa.
Apesar do filme se passar dentro do quarto o tempo todo e a sensação de desespero vai crescendo de acordo com aquilo que descobrimos, em nenhum momento o filme fica monótono e sentimos tudo: medo, repulsa, agonia e tristeza.
Uma das grandes sacadas da obra é usar um monstro como símbolo de todas as coisas que a protagonista passou, colocando uma forma em todos os sentimentos dela, tal qual um bicho papão. Que gera a pergunta: se todos os seus medos formassem um monstro, qual seria a forma dos seus medos?
O primeiro clímax é a cena dela ficar fazendo careta pra tela, mas também traz o simbolismo de se livrar das algemas que a machucam muito mais ficando nelas do que saindo. Mostra que vale o sacrifício de ser livre.
Quando o filme recomeça, vemos que nem tudo é final feliz, aliás muito provável que no final feliz o protagonista esteja catando seus próprios cacos. E é isso que vemos desta vez. Mas mesmo catando cacos, ferida por todas as verdades que mastigaram sua vida, Jessie segue fazendo o bem, transformando tragédias em novos começos para outras pessoas.
E em um novo clímax, ela enfrenta seus medos, agora porque quer! Porque quer se ver livre de uma vez, olhar nos olhos  do Monstro e enterrar de vez seus traumas.
É um terror que pouco tem de irreal, vem para mostrar que muitos monstros, terrores e a essência do mal nada tem a ver com o sobrenatural às vezes. Muitas das vezes está no outro, na covardia do ser humano em machucar alguém  sem pensar nas consequências que isso traz e sem contar que esses monstros nos acompanham a vida toda e muitas vezes a gente se depara com outros e por termos que normalizar essas situações continuamos nelas.
Dessa vez, e desde Scooby-Doo, King deixa o terror clássico de lado para contar uma história forte em que os monstros são as pessoas.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Odeio quando o personagem principal morre e a série morre junto



Narcos pra mim sempre foi ótima desde o primeiro episódio. Wagner Moura com seu Pablo Escobar com aquele andar de jeca, o olhar meio morto e o penteado duvidoso eram a luz da produção. Que também tinha seu mérito, um elenco de apoio afinado que garantia boas atuações e cenas de tirar o fôlego.
A série ganhou notoriedade levando quem estava com ela a participar de outras produções conhecidas, trazendo um hype para a produção na segunda temporada que contava o final do traficante mais procurado do mundo e quando acabou, muitos pensaram: e agora?
E agora a história é outra... Sem o parceiro Murphy (Boyd Holdbrook) que volta para os EUA (que na vida real antes ir adota a segunda filha na Colômbia), Javier Peña (Pedro Pascal) enfrenta o cartel que mais parece a Hidra da mitologia grega, que quando se cortava uma cabeça duas nasciam no lugar.
A quesito de curiosidade: O Javier Peña da vida real voltou para os Estados Unidos em 1994, um ano após a morte de Pablo e não se envolveu com a caçada ao cartel de Cali.
E tal como a Hidra surgem mais cabeças, aliás quatro: Gilberto Rodríguez Orejuela (Damian Alcázar), José Santacruz (Pêpê Rapazote que é português),  Hélmer “Pacho” Herrera (Alberto Ammann). Pacho era homossexual na vida real,  foi o último do Alto escalão a ser preso e foi morto em uma partida de futebol dos campeonatos que organizava na cadeia por um homem que se identificou como advogado, Miguel Rodriguez (Francisco Denis).
A verdade é que a história não anda. Ela não flui como nas duas temporadas em que temos um personagem encabeçando as histórias, mesmo que contraditório, tornava a narrativa mais interessante. Os quatro chefões do Cartel se bem trabalhados, se a apresentação de suas histórias acontecesse, enriqueceria a trama que patina em diversos momentos.
Aliás, se tem uma coisa que acontece em Narcos é dar aquela impressão de “agora vai”, os personagens mostram algumas nuances interessantes, mas ficam presos nas caras de malvados e mostram só a realidade do Cartel.
Com Pablo tínhamos um pouco da sua história pessoal, um pouco dele em cada ação, mesmo as terroristas. Ele deixava sua marca pessoal em cada ato porque ele foi apresentado ao público com aquele tipo de personalidade e foi ela que ditou o tom da história.
Tudo é muito raso, não vou entrar nem no mérito que nenhum dos caras tem o carisma de Pablo, as atuações estão dentro de um espaço limitado de quem só faz o que estão mandando.
Não tem mais as tocaiais, o “nem tudo é o que parece”, companheiros fiéis para se entrar na mata.
Tudo ficou no telhado com o corpo de Pablo.
O que se vê é um desfile de personagens que poderiam ter uma dimensão maior na tela mesmo sem o principal, que deu origem a série, com seu brilho, pois nada acabou com a morte dele. Tem uma continuidade justificada aí.
Quem coloca um pouco de adrenalina nas coisas é Jorge Salcedo (Matias Varela que é sueco) que leva uma vida dupla como agente infiltrado, ele é o responsável, junto com Peña, pela parte humana da luta contra o narcotráfico. Ficamos preocupados, torcemos, mas ainda sim falta alguém carismático que sendo vilão ou herói toque o público e faça a história do Cartel brilhar de novo.
O que acontece são episódios que giram em círculos e outros que acontecem coisas pontuais, mas não chegam nem aos pés dos acontecimentos das temporadas anteriores.
Mudar o foco como manobra para manter a obra, já que a premissa tinha começo, meio e fim, está certo, mas manter a qualidade de seus personagens é primordial para que continue sendo interessante assistir.
Narcos é uma obra inteligente que confiou demais no próprio enredo e não aprofundou o que podia apresentando novos personagens para ficar na memória dos amantes de séries. O que aconteceu foi uma temporada morna para fria que não vai deixar sua marca.
Com uma história poderosa nas mãos Narcos perdeu a oportunidade de consolidar mais personagens e criar uma expectativa para a quarta temporada já confirmadíssima.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018


Gran Finale- Sharp Objects

É aquele negócio né, nunca a série ou filme vai ficar igual ao livro. Mas Sharp Objects, se saiu muito bem em todos os sentidos. O ritmo da trama se manteve no clima do livro com o auxílio de um elenco harmonioso com seus personagens inclusive com os cenários.
As roupas de Adora, impecáveis em tons claros contrasta com as roupas de Camille já desgastadas e em tons escuros que parecem ter saídas de algum buraco, e as roupas da vida dupla de Amma, que alterna em ser uma  cópia de Adora tão louca e obsessiva quanto, e na  rua uma little bitch de marca  maior., E é numa dessas acompanhando as irmãs que chegamos ao clímax na série, aquele momento que toda a verdade será revelada e as crueldades de Adora,  se tornam algo real e que vem lá de trás do relacionamento que ela tinha com a mãe.
Na série optaram por omitir o fato que o casamento de Adora foi armado, pois ela era mãe solteira e inseriram  tanto quanto subentendido que acontece algo, ou o é só da parte do Xerife Bill Vickery ou apenas Adora que controla tudo e todos na cidade, inclusive as pessoas que merecem ou não atenção na cidade. Ela está em todos os lugares, é a figura regente na cidade. Após conversa com a melhor amiga da mãe, a ébria Jackie O’neill ( Elizabeth Perkins), as suspeitas de Camille a respeito de Adora se tornam cada vez mais menos suspeitas.
Tudo se concretiza quando depois de uma festança regada a drogas as duas chegam em casa e Adora se prontifica a cuidar da sua prole com todo amor e carinho que lhe é característico.
Muito xarope, muita lavação de roupa suja, uns puxões de cabelo e aquelas declarações mordazes a uma Camille completamente dopada na cama.
Aí parece que a coisa meio que acelera demais, diversos acontecimentos do livro que enriqueceriam ainda mais a trama não são mencionados.  Essa aceleração acaba meio que apagando o brilho do final que é tão incrível. Quando a série  meio que recomeça, as coisas parecem ter sido colocadas ali de forma muito subjetiva, quase como para se descobrir sozinho pelo telespectador, o que não é de todo ruim, para quem não  leu o livro é uma big surpresa e talvez  não fique tão ruim, mas para quem leu, fica  a sensação de que faltou algo, faltou um final com mais diálogo, mais ações. Ficou meio que vazio aquelas cenas desfocadas, a idéia de misturar o presente  com o passado é ótima mas poderia ter escolhido um momento para cada uma.
É como um vídeo clipe que tem momento certo para acabar e dar a sua mensagem. Talvez tenha sido o jeito de mostrar que a história não tinha acabado com o fim.
Terminamos meio atropelados como Camille, ouvindo seus pensamentos confusos entre a nova responsabilidade e a descoberta.
A cena pós créditos, recurso que a maioria dos filmes já usa, na série é uma grande sacada que apesar do corre corre do término, é super bem usado e dá aquele impacto que nos deixa de queixo caído com tudo aquilo que passou por nossos olhos e a ficamos ali com aquela revelação.
A série é incrível... Muito bem adaptada, apesar desse final que ficou meio fora do compasso do resto, tem uma direção muito eficiente de Jean-Marc Vallé (Big Little Lies). A história é muito mais que  “quem matou” – isso é superado todo o tempo.
Sharp Objects é como toda obra de Gillian Flynn, sobre o humano. Sobre mulheres quebradas em sua vida, que levam isso em suas rotinas, que vão de encontro às consequências de suas omissões, loucuras, amor, egocentrismo, dor, o que for. A autora fala ao centro do universo feminino quando deixa que suas personagens serem o que elas querem, sentir o que elas realmente estão sentindo. Elas são o que são. Camille é na pele o que ela é por dentro, tão forte para ir à cidade natal, mas fraca para ter medo da mãe e amar a irmã e ter medo de ir pra cama com um cara, enfim, Camille é a reunião de todas as mulheres que existem em nós em momentos da nossa vida.
Uma obra forte e interessante, Sharp Objects valeu cada episódio.


EU AMO ESSA: LEGENDS OF TOMORROW

É coisa de herói né gente, coisa de herói tem um lugar especial no meu coração. Comecei a assistir com o mozão e xonei. Deus, como eu amei, desde o primeiro episódio. E foi ai que eu descobri que muitos não gostam dela.
Por que meu Deus, por quê...?
A série que pertence ao Arrowerse (Arrow, Flash , Super Girl e a já anunciada Batwoman) tem os personagens de segunda base da DC que já começa no ano de 2166 quando o vilão Vandal Savage (que já apareceu em Flash) tá pra trazer o caos total e a destruição da humanidade enquanto o mestre do tempo Rip Hunter tenta resolver por si só as coisas. Do futuro, vamos para 150 anos no passado aonde ele convoca entre bandidos e vilões um time excepcional.
Antes de falar qualquer coisa aqui, tenho que admitir que estou há séculos na primeira de Arrow, vi a terceira de Flash e não vou assistir Super Girl. Ou seja, haja spoiler pra tomar. E é muito. Muito mesmo: gente que morreu, gente que era inimigo, agora está do lado da justiça, enfim, tem que dar uma olhadinha nessas séries por conta de spoiler e pra não ficar tão perdida. A minha sorte é que mozão manja dessas séries e me dá um suporte, na falta de mozão procure o nerd mais próximo, se no mais tudo falhar, GOOGLE, esse aí não falha.
A série é muito bem escrita, as viagens no espaço / tempo são maravilhosas e quando até a nave é uma personagem, não tem como dar errado.
Outro ponto importante é que a caracterização de quando eles viajam no tempo é algo teatral, bacana de tão simples, mas muito bem feito. Os efeitos especiais vem em constante melhora, até porque um filme, uma produção maior com mais orçamento, tem mais tempo and dinheiro  do que uma série que tem capítulos semanais a se cumprir e tem que ter “altos” efeitos especiais. Ao menos é honesto e não compromete nem um pouco a trama, que aliás tem mérito total do elenco. Que diante de histórias muito das bacanas como as já faladas viagens no tempo, heróis incríveis, personagens da história, acontecimentos tem uma história  inteligente que coloca todos como protagonistas e trabalhando para que funcione.
Tem umas atuações caricatas? Claro que tem! Brandon Routh (Ray Palmer\ Átomo) chegou perto de convencer como ator em Superman-O Retorno, de resto sempre fez as coisas com a mesma cara e mesmos trejeitos que no caso da série já casam com o personagem e a gente releva por que está se esforçando e não está conseguindo mas mesmo assim é bom. Como isso? Não sei, funciona na tela. E sem contar que ele tá sempre de personagem de alguma história nerd: Superman, Dylan Dog, Scott Pilgrim... O cara tem se especializado. Franz Drameh (Nuclear) precisou chorar em uma certa cena e não passou nenhuma veracidade e Maisie Richarson-Sellers (Vixen) com aquela cara de quem ainda não sabe o que está fazendo, o que fica menos pior na terceira temporada completa do time dos “canastrões que amamos”. Tem uma coisa que eu noto com muita frequência é os moles que a equipe de produção dá com os dublês na cena de luta, principalmente nas da Canário Branco (Caity Lotz): dá pra ver nitidamente por conta do cabelo muito diferente da atriz. Mas numa pesquisa aqui para escrever, ela é praticante de artes marciais desde cedo além de ser bailarina. O crescente da personagem é a olhos vistos e muito bom porque temos uma personagem bissexual e do sexo feminino como capitã de uma equipe. As histórias são cheias de piadas e referências, pois temos dois super nerds: Átomo e Gládio (Nick Zano).
Os episódios em voltamos  na infância de Ray Palmer e outro em que se depara com um grande cineasta que a carreira quase vai por água abaixo por causa das Lendas. São  alguns dos meus prediletos.
A série é inteligente e bem articulada e não tem momentos de marasmo, a todo momento está acontecendo alguma coisa mesmo nos diálogos. Luz, fotografia e ângulos são artifícios bem usados para que agradável aos olhos.
Os crossovers são um espetáculo a parte, mesmo tendo que assistir um episódio de cada série pra depois voltar pra Legends (mesmo ficando perdida) são muito bem construídos. O da terceira temporada envolvendo a Terra 53 é incrível. Até porque tem a volta de Snart (Went Worth) repetindo a dobradinha de sucesso com Dominic Purcell (Mike Rory/ Heat Wave) de Prision Break. Aliás esse último é o responsável por momentos ótimos na série além de ter um episódio familiar que é bem legal. Não só com Snart, mas Rory atormenta a tripulação inteira da Waverider. Mas está ótimo no personagem. Snart soa afetado e dá tudo ao personagem, até um olhar característico marcante. O cara se dedica.
Em verdade, em verdade não existe nos quadrinhos nenhuma série com o nome de Legends Of Tomorrow, a DC entre 1998 e 2001 publicou uma antologia com o nome Legends of the DC universe com histórias separadas de diversos personagens da editora.
CW está fazendo um ótimo trabalho trazendo esses heróis. Estou na terceira, sigo apaixonada e não me lembro de tédio ou de um episódio ruim. É muito bom. Vale a pena conferir.
“Don’t call us heroes, we are legends”.


domingo, 21 de outubro de 2018

Hype ou não hype? Eis a questão

O hype realmente é algo que divide opiniões: ou você fica doido para ver a razão do assunto ou te faz tomar birra e nem querer assistir.
Eu particularmente fico entre as duas opções acima. Tem coisa que eu acho que não vale nem a pena perder o pouco tempo que eu tenho para assistir séries e afins. Às vezes é só modinha mesmo. E nem tudo que é unânime é bom. Ou é. Depende dos olhos de quem vê.
Nesse hype de Riverdale, La Casa de Papel, Sierra Burguess is a loser, Para todos os Garotos que já amei, Os inocentes, American Horror Story, Elite tem coisas que realmente despertam a nossa atenção e outras que podemos ficar sem ver, por que, né? Não vai fazer a menor diferença. Ou você pode ser como eu e ser consumido por uma curiosidade mórbida e se dispor a assistir.
E hoje eu assisti Riverdale e comecei a assistir com os dois pés atrás. Já tinham me dito que era clichê, o lance de um monte de jovenzinhos de uma cidadezinha correndo atrás do próprio rabo com pano de fundo um crime, muito beijo, cenas quentes, garotas padrão  e o tal do Archie (KJ Apa) com aquela tintura horrorosa e sem camisa sempre quando pode (desculpa gente), a quantidade de canais de Youtubers que colocam o tempo todo o elenco, o que fazem, o que vestem, o que comem, como respiram de modo perfeito...
Mas aí veio o teaser (instigante no mínimo) de Chilling Adventures Of Sabrina que estreia no dia 26 de outubro no Netflix, tem os mesmos produtores de Riverdale e pertence ao mesmo universo da Archie Comics que eu fui assistir.
E não, eu não me arrependi. A série é muito bem feita. Na medida certa pra agradar mesmo. Pra ter fã. Pra ter zilhares de pessoas comentando o primeiro episódio e o season finale e todo mundo pular de alegria quando anunciam a terceira temporada.
Riverdale é essa gracinha mesmo. Os personagens transitam tranquilos na trama fazendo com que a gente se afeiçoe muito rápido e já escolha o seu preferido. O meu?
Eu fiquei morta de amores pela bitch que está tentando ser good bitch, Veronica (Camila Mendes), mas também gostei do Nancy Drew Meet O Médico e O Monstro de Betty Cooper (Lili Reinhart), mas fiquei mexida com a coisa metade má metade sofrida de Cheryl Blossom (Madelaine Pertsh). Esses personagens são, apesar de todo o clichê, muito bem construídos e abaixo de todas as camadas do que já conhecemos existem coisas da idade muito bem trabalhadas e inteligentes.
Aliás, temas pesados são super, estão lá: os pais abusivos, os problemas de escolher o futuro, de não ser o suficiente, as paixões e problemas. E os assuntos são tratados de forma muito real e são incorporados trama enriquecendo a série.
A série é adolescente mas trata com seriedade essa fase da vida  sem deixar de lado os crushes, desilusões, intrigas e rivalidade que fazem parte dessa fase da vida.
As locações são geralmente espaços pequenos que dão  aquela sensação de chuva que se passa do lado de fora, o lugar com mais espaço é o drive in e na cena em que é usado optam por fazer grandes takes, dos principais atores com os seus conflitos.
A série respeita quem for assistir, não tem nada que já não tenhamos visto, mas vale o hype. É isto. Vale sim. E o “quem matou e por que matou?” se encaixa perfeitamente nas subtramas fazendo que as coisas que acontecem ao mesmo tempo não fiquem emboladas e sigam o eixo da história central.
As atuações também são boas, os atores estão bem dirigidos e acertando o tom. Procurando dar características para se tornarem marcantes. A trilha sonora é incrível e o os figurinos de Cheryl e Veronica são esplendorosos. Fora a fotografia que é bem bacana.
A lição que fica é que você só vai saber se o hype vale a pena... Vendo. Só assim e só assim. E assistir sem pré-julgamentos (isso serve pra mim inclusive), assistir por que de repente o assunto te interessa e você pode descobrir mais alguma coisa para amar. Como eu descobri.
O clima de mistério e personagens problemáticas caíram no meu gosto me fazendo devorar a primeira temporada. Além de debater os temas, algo que eu achei muito bom é que as meninas estão diversas vezes se ajudando, aliás um episódio quando isso acontece é lindo. Fora o filho gay que é aceito e não é o gay idiota estereotipado, o estranho repudiado por todos... Essas diferenças trazem uma esperança que novas produções tragam mais coisas fora do que é visto. Sabemos da dificuldade da criação, mas um clichê se usado com inteligência, fazendo uso da realidade que temos hoje, conseguirá fazer o que são obrigações dessas produções: divertir e informar.
Fica a dica aí pra quem está lendo muito sobre mas ainda não teve coragem de clicar para ver. E se não gostar, tá okay também, ninguém é obrigado a nada e isso não te faz hater.
É para isso que essa diversidade de produções existem: para atender a diversidade de gostos.



Quando uma questão de empatia transcendeu a política em uma eleição


Se você é brasileiro e não foi buscar água em Marte está sabendo do assunto mais comentado do nosso país: as eleições. O negócio foi tão “brabo”, o pessoal está postando tanto nas redes sociais, que nem colocar fotinha de quando era criança o povo lembrou. Nem rolou aquele lance de ficar perdido sem saber quem é porque mudaram a foto.
A discussão está acirradíssima. As falácias pesadíssimas. Fake News e informações disputam com o  Facebook  o almoço de domingo, é a grande hashtag do momento. Tem gente que já está contabilizando os amigos e parentes que perderão até o Natal e já estão procurando quem resta para passar as festas de fim de ano.
O negócio é sério. É mais que uma hashtag. É o futuro de uma nação inteira, são nossas vidas, nossos amigos, nossa liberdade. Essa eleição transcendeu a política. Ainda é política, mas é de caráter moral. É uma eleição de votos estratégicos, que não adianta votar por afinidade política, é um voto que é secreto, mas não é individual. É um voto que dependendo como for é egoísta, assassino, preconceituoso e violento.
No domingo quando foi decidido o primeiro,  turno estava com meus amigos e meu namorado nos divertindo até o momento do anúncio dos candidatos que iriam para a disputa do próximo turno. Eu fiquei pretrificada com o resultado. Estava jogando The Godfather, um jogo que eu estava louca para jogar há séculos, mas quando eu vi que aquele senhor estava perto, aliás muito mais perto de ser nosso presidente, contra o PT que é o partido com a maior coleção de haters do país... Eu fiquei muito desesperada. Porque tudo eu conheço e amo vai sumir. Vai virar histórias contada por sobreviventes nas estradas ou vestígios que deixarem passar.
Até eu me pergunto às vezes se não estou sendo dramática demais, mas as coisas que ouvimos falar desse regime, as coisas que vimos nas escolas, os filmes, os livros e os depoimentos de pessoas que viveram essa época não podem deixar margem de dúvida de o quanto vai ser prejudicial para alguns grupos de pessoas quando isso acontecer.
Pessoas que eu nunca imaginei concordarem com as ideias daquele senhor o estão apoiando e eu fico muito sentida porque eram pessoas que eu tinha em mais alta conta e sempre admirei e não esperava que essa violência pregada por ele, embalada como transformar o Brasil, conseguisse atingir tantas pessoas.
Eu entendo. A gente tá passando por um merdelê enorme em nosso país e as pessoas estão cansadas de todo dia um roubo diferente na mídia feito por quem deveria nos representar. As pessoas estão cansadas de mentiras embutidas em planos de governos de partidos que roubam para si e para os outros.
Por isso esse repúdio ao PT. Eu particularmente não consigo defender o PT, mas agora é a hora de pensarmos no coletivo. Como temos lido nas redes de alguns: “se a gente votar no PT tem como irmos as ruas e fazer protesto, num governo fascista isso não será possível”. Eu sei que o PT cagou muitas coisas, mas por outro lado também acho que fez ótimas coisas. Provado. O que não pode nos cegar é trocar algo ruim pelo péssimo, ter nossa liberdade cerceada por um militar que acredita que se der uma porrada, tudo se transforma.
É porrada que você quer?
Viver com medo, sair com medo. Ser refém dele. Desculpa se eu estou sendo radical, mas quem apoia esse homem, que como dizem tem sido vítima de uma mídia suja que distorce tudo que ele diz, deve estar em dia com o padrão que ele diz defender. Se bem que eu acho que no final, até seus asseclas, sofrerão as consequências.
Quando eu vejo um nerd apoiando esse cara me dói, por que ele assistiu tantas coisas desse universo que são revolucionárias que prezam pela liberdade e não é possível que não aprenderam nada!
Será que eles pensam mesmo que um cara como aquele que trata negros como animais vai respeitar quem se veste de um personagem que nem existe? Eu tento entender mas isso vai além da minha compreensão e parecem estar todos sob uma hipnose fortíssima em que Fake News são verdades absolutas e grupos de whatsapp são a fonte mais confiável do mundo.
Amigos meus estão dizendo que quem vota nesse  homem tem um desvio de caráter muito grande, eu ainda não quero pensar assim quero ainda acreditar que nessa fé cega por um salvador da pátria as pessoas estejam se afastando do que é verdade , quero pensar que eles estão querendo o tal “meu partido é o Brasil” e não querem ver o que tá rolando e estão justificando o que ele fala como a última chance do Brasil melhorar. Mas eu confesso que já estou ficando p*** da vida. Já exclui alguns, e olha que eu já disse que cortar amizade não, mas avaliar as atitudes dessas pessoas sim Por que esse voto fala muito sobre os reais pensamentos desse alguém. Tem muita gente que fiquei com pé atrás. Fora o povo que quer causar e vive bostejando sobre esse senhor. Pior são aqueles que desmereceram os ataques ocorridos com algumas pessoas, alguns disseram que “nossa como de repente começaram os ataques né” ou “ a violência nunca existiu, começou tudo agora”.
A violência sempre existiu, sempre contra essas pessoas então é algo infelizmente rotineiro, mas quando um presidenciável legitima isso e diz que isso vai ser um dos modos como ele vai governar o país, essa violência ganha força e passe livre para acontecer.
“Ah, mas não é ele que está violentando as pessoas”.
“Ele não tem culpa”.
“Quando chegar lá ele não vai poder fazer nada, por que com certeza o senado não vai apoiá-lo”.
É o eleitorado dele que está fomentando isso, aos gritos de seu nome, dizendo que quando ele for eleito será possível fazer todas essas coisas, e ele tem culpa sim. Toda vez que ele fez aquele sinalzinho dos dedos com a arma, ele faz com que mais pessoas se sintam livres para fazer o que quiser com quem não lhes agrada.
E eu quero muito, muito acreditar nisso de que quando ele chegar lá o senado não vai lhe dar ouvidos. Mas dentro do meu coração eu acho super possível que o senado acate cada ordem achando que já foram permissivos demais com os brasileiros. Liberdade pra pensar demais, saca?
A questão não é mais política, é humana, é sobre vida ou morte. É sobre estarmos na rua e ser abordado por um exército que vai nos vigiar e nos limitar.
Deixando claro aqui que é a disputa entre ruim e o pior. O famoso se ficar o bicho pega, se correr o bicho come, não queria ter que votar entre nenhum dos dois. Nenhum dos dois me representa. Mas hoje, pela nossa integridade e de quem amamos é necessário tomar uma posição direta a nossos direitos.
Tempos tenebrosos nos aguardam e eu sei que terei de ser resistência, mas estou com medo, muito mesmo. Domingo estava com amigos queridos e pensei que tudo aquilo poderia acabar e ser só uma lembrança enquanto todos sofreremos em novos porões da velha ditadura.
Eu decidi lutar, fazer uma militância, no face, no insta, nos meus textos. Defender o que eu acredito sem me render. Inclusive contra o PT por que se o senhor Haddad chegar vitorioso ao fim desse episódio horrível de Black Mirror Brazil Edition eu vou cobrar dele, afinal políticos são nossos empregados e nos devem conta de tudo. Se possíveis já pagas.
Eu não vou aceitar nenhum tipo de reprimenda ou deboche com esse assunto tão sério. Estou tentando não ser extremista, mas está difícil. E também não quero os que são contra esse senhor sendo extremistas. Se defendam, defendam o que acreditam. Sejam resistência como puderem, com quem quiser ouvir.
Sejamos resistência. Mudaremos o mundo com coragem e amor

domingo, 26 de agosto de 2018


Uma confusão literária...


Eu sou louca por Harlan Corben. Desde que li Confie em Mim e Não Conte a Ninguém alucinei nesse autor e comecei a comprar seus livros. Depois de muito tempo sem ler nada dele, peguei Seis Anos Depois escrito em 2013. Ó... o negócio vai indo, indo, indo e se enrola bem.
Com um protagonista entre o obstinado e o idiota, as 222 páginas vão apresentando coisas que em um primeiro momento não tem nada a ver, coisas irrelevantes à trama, mas quem lê esse tipo de literatura sabe que nada, nada mesmo deve ser deixado de lado. Detalhes são tudo. Só que o texto tem um tom dramático, com umas frases que são um misto de Cinquenta Tons de Cinza e Crepúsculo (e só deixando claro que eu  AMO Crepúsculo, digam o que quiserem) e tudo se embola, e não é tão bem trabalhado pelo autor, fica dando voltas e voltas, sempre batendo na trave quando vamos chegar perto de alguma resposta ou somos meio que “jogados” para longe dos fatos.
O problema que isso é um recurso usado diversas vezes e se torna cansativo, além do que um homem apaixonado acabando com a vida de um monte de pessoas por amor com inúmeras burradas, não é bacana.
Ou é?
Ó, eu não sei. Só sei que passei o livro sem me afeiçoar a ninguém. Tem tempo eu não shippo nenhum casal da ficção, todos são tão... Insossos. Tá, gostar do Edward e da Bella não me faz uma especialista em casais da ficção, mas o tal do Jake e da Natalie, oh complicação!
A história tem umas reviravoltas ótimas e tem personagens que no final se encontram, mas o meio é muito parado, o drama de Jake não convence e o ritmo é muito aquém do que se espera de Coben.
Apesar de ter o seu valor literário, inclusive com um vocabulário ótimo e uma tradução primorosa, a história não decola e parece que o autor cozinha a gente em banho maria para chegar no clímax e fazer tudo se encaixar e você dizer “aaaaaaaaaaaaaaahhhhh táááááááaáá”.
É bom, mas não é ótimo. Passei o tempo todo procurando uma razão para que o Jakie, mesmo com tantos avisos para largar toda aquela história de lado, continuar procurando Natalie e causando tanta confusão.
Tudo parece meio apressado e você olha e sabe que poderia ser melhor trabalhado.
O fim é super bem amarrado, tudo faz sentido e você nota que poderia render mais coisas, o desenvolvimento poderia ser maior. Mas é um final correto para tudo que se viu durante a leitura.
Achei que faltou mais desenvolvimento dos personagens. Um flashback talvez. Um capítulo para o passado, ou com mais informações sobre pessoas, fatos e coisas.
Mas é um final feliz e os românticos de plantão vão amar. Em alguns momentos me senti lendo Sidney Sheldon que eu amo de paixão aliás.
O tom era melodramático demais, choroso, aquela coisa que tudo que está acontecendo é para separar o casal protagonista e nada mais importa: nem a máfia, nem assassinatos, nem sumiços, nem uma instituição inteira. Fica tudo pairando no ar enquanto esperamos a história acontecer.
Não é uma leitura ruim, mas já li melhores. Mas não desistirei de Halan Corben. Tenho outros livros aqui, logo irei conferir outra história. De qualquer forma, vale a leitura.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Amizades, tempo e desapego


Eu em algum lugar já escrevi que não sou uma pessoa saudosista. Acho que foi no facebook, mas o que eu quero dizer é que não sou aquele tipo de pessoa que fica lá toda sentimental vendo fotos antigas (aliás, as vezes as lembranças que o facebook mostram são de amargar) ou com conversas sobre um tempo que já se foi.
Eu não tenho essa de saudade, eu vivo o agora. Só me culpo por não planejar um futuro, ter um plano para o amanhã, para o próximo mês, para o próximo ano.
Mas o passado? É como diz a música “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Eu não tenho amigos do primário, do ginásio menos ainda. Pior época da minha vida, sei que a adolescência é uma época complicada, mas quando se é gorda a coisa fica pior. Dizem que o inferno é o seu pior  pesadelo, se for, o meu pesadelo  foi o ginásio. Pior fase da minha vida, tudo de ruim aconteceu, não sei como resisti. Dias difíceis na escola, mãe repressora e sem orientação nenhuma; cheguei até aqui com tantas cicatrizes que só se curaram por que eu fui me cuidando, fui entendendo muita coisa.
Quando acabei não olhei nem pra trás pra não virar estátua de sal. Os problemas da minha vida não acabaram, lógico, levei uma boa parte comigo, mas pelo menos aquele climinha  escolar maldito acabara. E eu nunca mais procurei ninguém, nem no advento das redes sociais. Com a maturidade vi que era uma pessoa que falava muitas coisas (AKA merdas) para poder me igualar ou ser superior ao grupo. Com certeza as pessoas viam que aquilo não era verdade, só historinhas, aquilo não me rendeu boa fama ou um lugar bacana na galera.
Me afastei e não procurei ninguém. Ninguém. O único problema é que eu não mudei nada daquela época pra cá: continuo com a mesma fuça redonda. Com exceção de uns mil kilos a mais, eu continuo a mesma. Aí sempre tem algum conhecido na rua que fica com aquela cara “eu acho que eu conheço essa menina de algum lugar” ou mais direto “aquela não é a Michele?”. Bem, eu não explico, troco de calçada, mexo no celular, olho pro outro lado, enfim, não é comigo.
Mas teve uma vez que não deu pra escapar. O foda que eu acho que ele também não queria parar, porque ele foi o crush, na época que não se usava a palavra crush (aliás nem lembro como se chamavam as nossas paixões nem 1995) e com certeza ele se lembra do dia em que fomos eu, ele e a que seria sua futura esposa no cinema e eu fiquei passando a mão na perna dele durante todo o filme, acariciando os pelos da perna dele... Ó, só de lembrar quero morrer.
Continuando, um dia ele estava vindo e eu indo e não teve como escapar e tal, aquele momento constrangedor que tudo que você quer é que se abra um buraco no chão ou um carro invada a calçada e te atropele só pra você não ter que falar com aquela pessoa, mas muito sem graça ele parou. Conversamos, bem não foi uma conversa, foi um interrogatório amistoso sobre a vida:
“Como você está?”
“Casou?”
“Tem Filhos?”
“Tá morando aonde?”
“Você lembra de fulano?”
“Você viu ciclano?”
Aquela coisa chata, não sei se fui eu que ofereci ou se foi ele que pediu, passei meu celular para ele, com promessas de ligar e marcar algo entre eu e a família grande e feliz que ele tem com a minha ex melhor amiga na época.
O convite pro rolê não veio, mas caí em um grupo de whatsapp da escola que eu estudava.
Mano do Céu, aquilo acabou comigo, eu fiquei putaraça. Mas quem disse que eu permiti isso? Quem disse que eu concordava com os termos? Quem disse que isso é bacana????
Pois muito que bem, quando vi estava no meio daquele interrogatório amistoso que falei acima, com pessoas que nem sabia quem era e nem queria saber, quando começou a sessão “lembra aquele dia...” Putz! Depois começou a sessão de fotos antigas... Mas o golpe final foi quando falaram VAMOS MARCAR UM CHURRASCO!
Eu saí. Se eu pudesse eu saía correndo fisicamente com medo desse povo me alcançar. Pretensão minha acha que em um grupo com muitas pessoas, notariam minha insignificante presença.
Eu não tenho saudades, eu não quero reviver o recreio narrado por meninas que me ofendiam enquanto eu me sentia péssima por ter que comer pão com presunto enquanto elas tinham conta na cantina da escola.
Eu não quero reviver aquele sentimento horroroso de não entender o porquê eu não podia usar meu cabelo solto como o das outras meninas.
Eu não quero reviver e notar que eu não tinha nem o corpo padrão e não agia como mocinha como as outras.
Eu só queria distância.
Eu passo pelas épocas da minha vida e não levo nada. Só as histórias pra contar que eu só conto quando lembram.
Eu sou uma pessoa apaixonada, mas essa paixão passa. Já tive amizades de jurar amor verdadeiro, amor eterno que hoje eu finjo que não vejo a pessoa no ônibus. Já tive amizades que todo mundo se juntava na casa de um amigo meu no domingo e ele entrava pra transar com o namorado dele e a galera esperava do lado de fora por que éramos muito “unidos”.
Tipo de amizade que a família dos meus amigos me chamavam pra tudo, de batizado a velório.
Quando a coisa começa a ferir a minha liberdade e meus sentimentos, eu pulo fora. Não digo que é de imediato, não... Eu sinto uma dor aqui, uma dor ali, um incômodo acolá e quando vejo tô saindo mesmo. Eu sou uma pessoa extremamente permissiva. Acho que tudo tá bom, tá bacana, eu mereço. O foda é quando você acorda e vê que a amizade não é aquilo e você não precisa disso.
Eu saio e geralmente é abruptamente.
Quando eu vejo não atendo mais o celular, mensagens finjo até que não tô em casa. Eu corro mesmo. Eu, particularmente com esse grupo de amigos, não aguentava mais a pressão pra poder sair, eu já estava cansada de gandaia e o povo insistindo e eu cada vez mais querendo ficar em casa e dormir. Ficar na minha. A amizade se tornou uma obrigação, algo que tinha que ser. Todo final de semana, às vezes durante a semana. Quase a semana toda. E eu falava que não estava afim. Que não queria. Mostrava desinteresse.
Haja dinheiro. Haja saco pra uns papinhos que não te somam...
O ápice foi um dia que um grande amigo meu na época (tínhamos até um apelido um para o outro, super pessoal e intransferível) me ligava constantemente do número dele, aí um dia me ligou de outro número e eu atendi:
“Oi Ximelly, por que você não está me atendendo”?
Fui uma canalha, eu sei. Fiquei muito sem graça e falei que retornava outra hora. Um dia, muito, mas muito tempo depois topei sair, numa espécie de revival com a galera. Ou o que restou dela.
O que era pra ser uma noite divertida (ou foi o que eu achava, porque tempos depois eu percebi que aquilo tinha sido uma armadilha) virou uma lavanderia: uma lavação de roupa suja, com direito a acusações e shade, muito shade mesmo. Os cadáveres que tínhamos no armário saíram pro bar.
Prometi a mim mesma que nunca mais, nunca mais sairia com eles. Eles criaram um dialeto próprio, um life style que eu não sei nem como fazer pra participar. Estranho que era tão fácil estar com eles ali, o tempo todo. A gente colaborava com gasolina e saia por aí, sem destino, só pra estar junto apertadinho no carro. Cantando Jay Vaquer. Tínhamos até música. Chegávamos em casa e ficávamos de papo no twitter, narrando os melhores momentos da noite... Como eu não bebo cerveja, sempre davam um jeito de me arrumar cachaça... Não consigo falar “ah não sei o que aconteceu”. Até porque aconteceu o tempo, a vida, as idas e vindas, compromissos, boletos, maturidade e a minha falta de paciência para algumas coisas.
E acho que tudo tem um tempo, uma fase. E a nossa havia acabado e eles demoraram para entender. Ou pra mim a nossa fase tinha acabado.
O legal é que o do grupo que todos diziam que era o mais filho da puta, foi o que entendeu isso perfeitamente: nos encontramos esporadicamente e agimos como se fôssemos sempre amigos, mas agora em tempos diferentes e que seguem a sua vida sem a cobrança do “vamo marcá”.
Eu passo como os dias, eu não ajo igual, não que não crie laços mas vou indo e quem tiver que vir que venha. Não vou culpar meus problemas psicológicos porque não sei se são eles, não fiz terapia o suficiente, mas é certeza que não tenho essa de recuperar o tempo perdido. Eu vou indo, vou caminhando.
Houve  pessoas do meu dia a dia, de quem eu cuidava mesmo, chamava de filha e tal, mas hoje eu não tenho mais contato. E não quero. Tantos merdelês emocionais que me esgotaram, tanto do meu espaço que foi consumido. Sou uma pessoa que não gosta de grude. Você não precisa falar comigo todo dia, não gosto de sair de galera, aliás quando vejo um grupo de adolescentes sempre penso em chamar a polícia e falar que é formação de quadrilha. Adoro andar sozinha: almoçar sozinha, ir aos lugares sozinha.  Demorei muito tempo para apreciar a minha própria companhia e depois que se faz isso é um caminho sem volta.
Não me cerca, não me aperta. Às vezes as pessoas fazem isso sem querer, mas eu sinto. E tem sempre um pra dizer “mas você não era tão amiga de fulano?” “não dizia que amava não sei quem”?”.
Antigamente sentia culpa, me achava fútil, mas hoje digo “na época eu amava sim, passou”.
Tenho problema com pessoas dependentes porque eu não sei compartilhar meus problemas nem com quem está ao meu lado. Acho que tudo é minha responsabilidade e não devo incomodar ninguém.
Acho que as pessoas devem ser autossuficientes, claro que tem horas que aquela amizade ajuda, mas as pessoas precisam se ajudar antes de buscar ajuda no outro.
Não estou falando que esse meu jeito é certo. Só estou escrevendo isso para dizer que acontece, tenho amizades de mais de 15 anos. O segredo é não haver cobranças, o tempo junto é importante, mas respeitar a individualidade do outro é importante. Eu não posso invadir o seu dia, só por que sou sua amiga.
É o tipo de coisa que me questiono, mas tenho muita certeza de que saudosista, eu não sou. Paro agora e penso que não tenho saudade de nada. Talvez seja por que sou ansiosa e o ansioso é louco pelo próximo minuto e sim, lembranças disparam a ansiedade de alguns, mas não a minha. Tenho muita certeza de que essas pessoas contribuíram para o que sou hoje, mas não dá mais. Acabou.
Com a consciência, sigo minha vida, pensando que posso fazer mais pelo meu futuro do que ficar pensando em “como era bom naquele tempo”.


É preciso um pouco mais de calma


Eu lido com pressão desde que trabalho: metas, horários, dinheiro, correria... E eu sempre fico nervosa no processo. Quem não fica, não é mesmo? Mas acho que em 2016 atingi o meu auge. Nem eu estava suportando a minha falta de paciência.
Eu perdi o emprego às 16:00 horas e o recuperei às 19:00. Pois é. Saí de férias, quando voltei estava demitida. Mas aquelas coisas da vida (que eu gosto de chamar de Deus)... o menino do departamento de onde eu trabalho saiu para algo melhor. E no dia seguinte voltei para a mesma empresa, mas em outro setor.
Eu achava que tinha muita pressão aonde eu trabalhava...  Primeiro era a pressão da chefia, , depois a pressão de lidar com pais e alunos. O tempo todo. Correndo, fazendo, organizando... fora auxiliar professores. Fora lidar com todas as atribulações de um ambiente de trabalho.
Eu fui aprendendo a função, era como se eu estivesse calmamente (ou aparentemente calma) dentro de um furacão enquanto a minha vida girava nele, tipo quando tem umas árvores no espiral.
Pra ajudar, o setor estava mudando de chefia, estavam organizando a casa. Ou tentando. E eu que sou muito prestativa estava pegando tudo pra fazer. Não quer dizer que eu faça certo, mas no quesito profissional eu não tenho medo de me lançar de cabeça. Nem que isso cague o processo.
Sempre querendo agradar, ficar no emprego, eu fui pegando tudo, fazendo tudo e enlouquecendo no processo. Até por que eu estava sozinha. Mesmo tendo outras pessoas.
Sabe quando ninguém colabora? Pois é. Foi um dia que notei que não estava tirando hora de almoço e nem conseguindo me secar depois de fazer xixi. Eu notei que eu estava correndo. Sempre correndo. Com o lábio suado e cara de maluca, de quem está apagando um incêndio enquanto tenta aparentar calma.
Só que por fim eu não estava aparentando mais calma. Notei que estava soltando os cachorros em cima de quem fosse. E isso já não é legal normalmente, imagina quando você lida com público? Pois é, as reclamações começaram. E foram muitas, tantas que nem sei quantas vezes fui chamada a atenção. Meu problema não é a minha língua, meu problema é a minha cara.
Eu sou extremamente careteira e nisso eu tenho umas respiradas fundas sabe? Parece que vou tragar o mundo de uma vez só.
E o público quer ser bem tratado, recebido com sorriso e cortesia. O ser humano quer né?
Mas eu nem notava que estava fazendo aquilo. Estava sempre esbaforida, sempre irritada, cansada, nervosa, estourando. E quando você fica assim, você fica fraca. Vulnerável.
E eu fiquei. Foi aí que vi que estavam deixando ainda mais coisas pra eu fazer. Deixando mesmo. E eu surto. Surtando mesmo.
Pra completar, descobri que a minha companheira de trabalho não era assim tão legal quanto aparentava. Eu fui trouxa. Na verdade eu sou até hoje, mas naquela época era pior. Para você ter ideia, ela “me fez” trabalhar quase dois meses seguidos todos os sábados (quando revezamos os sábados) porque queria isso, queria aquilo... Fora sair cedo todo dia, fora voltar três horas depois do horário de almoço. Além disso, todo mundo a via assistir todas as temporadas de Vikings e Lost e não falava nada, mas o dia que resolvi tentar também e abrir um livro... Na hora desceram e me chamaram a atenção. Nunca mais tentei.
Você deve estar se perguntando “aonde estavam seus chefes?”. Eu prefiro responder que eles não estavam lá. Mas como já disse, acredito naquela coisa chamada destino que gosto de achar que é Deus.
Sim, levou tempo. Quase dois longos e penosos anos. Tive que aturar muita coisa calada, pois achava que fazer o meu, além de garantir o meu emprego, também me dava forças pra continuar. Os sapos que eu engoli ainda moram no brejo do meu estômago e desde então tenho uma gastrite de estimação.
Verdade é que estava com os nervos em frangalhos e fazendo mal o meu trabalho. Amando o que fazia, mas fazendo mal por estar tão esgotada e injustiçada que agia apenas por instinto.
Dá-lhe mais esporros. E eu ficava sem almoçar saindo muito mais tarde do que o meu horário.
E haviam outras pessoas também sobrecarregadas e aquilo criou meio que uma atmosfera pesada em que todo mundo sorria tenso.
Ah, e eu comecei a namorar também. E foi uma loucura, de um lado feliz com a minha descoberta profissional e com o lado pessoal, mas por dentro acordando todos os dias cansada e irritada sabendo que ia trabalhar sozinha e não dar conta de nada.
Até que eu comecei a surtar não no sentido literal, mas no sentido da doença. Sério. Acessos de raiva, bateção de porta e respiradas altas pelos corredores. Tudo era um martírio. Eu não ficava satisfeita nem quando executava bem o meu serviço.
Comecei terapia, mas não deu muito certo. Tomei medicação por um tempo (até a grana pra comprar acabar) e não sei até hoje se senti melhora.
Eu não melhorei. Comecei a chorar no banheiro, agarrada na beira da mesa. Comecei a perder o sono, comer compulsivamente em um dia e no outro comer nada.
Te contei que comecei a namorar né?
Pois é. Meu namorado é professor. O cara mais carinhoso do mundo. Ele é dedicado, amigo, doce, gentil... Enfim. Alunos grudam nele. Melhor, alunas. Ele é um imã. Já conversamos sobre uma benção/maldição que temos que as pessoas do nada abrem o coração para nós. Ele tem muito mais paciência que eu, por isso o índice de alunas na órbita dele.
Junta que você é ciumenta, insegura e está no pior momento emocional da sua vida, logo, brigas e mais brigas e mais brigas. Um dia estava com tanto ódio que desejei a morte de uma dessas meninas. Ele descobriu, ficou putaço comigo e quase que tenho que escrever aqui “na época eu tinha um namorado” porque eu tive que me controlar. Ou tentar me controlar.
Perdi muita coisa, o sossego inclusive. Não tinha horário para trabalhar, trabalhava o tempo todo, até quando não estava trabalhando. Levava o trabalho para o meu namoro, para a minha casa. Estava ficando doente. Fiquei, anêmica inclusive.
Até que... Consegui pedir umas férias. 30 dias. E eu sou uma pessoa muito da azarada. Se uma coisa ruim tiver que acontecer comigo, ela vai acontecer comigo, certeza, e elevada à décima potência. Mas dessa vez, consegui. Férias em julho. Para não atrapalhar. Para poder ter paz. Para não ficar preocupada com o trabalho.
E assim o fiz. Não tenho grandes pretensões quando se trata de férias. Eu só quero dormir, assistir séries, ler, comer e ficar atoa. Namorei bastante e retomei a escrita.
Foram férias ótimas: produzi, relaxei e não me preocupei com o trabalho. E tomei uma grande decisão: teria mais paciência, teria inteligência emocional. Iria respirar e pensar. Sorrir sem morder (dizem que eu sorrindo sou pior que rosnando. Mas aqui abro um adendo porque achei que quando estava pra entrar de férias estava melhor, sorrindo, sendo mais cordial, mas disseram que não, então não sei se isso confere). Eu iria tentar sorrir mais, ouvir mais. Tentar não ficar tão nervosa  com coisas que estão além do meu campo de ação. Não são minha culpa e eu não posso fazer nada. Pensar que preciso encarar, mas sem arrancar a própria pele e ficar vulnerável a tanta coisa e quase morrer a cada expediente.
Dramático não?
Pode ser pra você. Pra mim era rotina de segunda a sábado.
Eu voltei há duas semanas e tenho tentado. Tenho respirado a cada atendimento. Mantido minha garrafinha de água cheia, me alimentado (eu com fome fico bestial) me permitindo ir ao banheiro. Já disse que tenho respirado?
Sei que voltei agora, ainda tô fresca de férias, mas quero tentar um método de mentalizar a palavra paciência. O tal de jogar pro universo que eu meio que acredito, meio debocho. Mas quero pensar que vai dar certo. Por mim mesma. Pra não ficar levando bronca (triste é que já pegaram isso de mim e estão sempre observando e julgando). Mas tenho prestado atenção ao meu tom de voz, que naturalmente é meio agressivo, tô baixando a minha voz, olhando no olho das pessoas, tô até passando batom.
Andado devagar pelos corredores, sem movimentos bruscos. Sem ser rude comigo, nem com as pessoas. Respeitando meus nervos. Tenho tentado sair no meu horário, apaixonada pelo meu trabalho. Sim, eu sou. Com tantas experiências, com tanta coisa que tenho aprendido...
Sigo em frente na luta contra a fera que está adormecida em mim. Ela vai acordar, vou voltar a suar o lábio, mas tenho certeza que terei mais controle.

sábado, 21 de julho de 2018

... Logo eu, que não acreditava em gatilhos emocionais


Eu achava que isso não existia e como todas as pessoas achava que era mais uma psicopalavra da moda, ainda mais que o que desencadeou isso foi a série 13 Reasons Why.
Na verdade, eu lia alguns blogs e dependendo do assunto, se no começo do texto tinha escrito “ALERTA DE GATILHO”, eu não entendia muito bem, até ir a fundo na pesquisa, pra poder compreender:
Gatilhos emocionais são criados após experiências negativas. Quando somos postos em uma posição semelhante a um evento traumático do passado, nossas emoções são desencadeadas e reações impensadas podem levar a acessos de raiva, ansiedade, quadros de depressão.
E geralmente esse alerta vinha antes de textos que falavam sobre estupros, violência doméstica, abandono... Enfim, GATILHO EMOCIONAL pode ser tudo. Para algumas pessoas pode parecer uma grande bobagem, dizer que “já passou”, mas não passou. Nunca passa. Só muito carinho, tratamento psicológico e o tempo cuidarão eternamente dessa ferida. Muitas vezes sugere-se acompanhamento de um profissional que receite algum medicamento.
 Em 13 ReasonsWhy, o livro que originou a série já tinha dado o que falar com assuntos como suicídio, bullying e assédio que há tempos existem, mas hoje com mais conhecimento conseguimos (às vezes) detectar melhor.
Para saber mais sobre a série fui conversar com pessoas que já haviam-na assistido e notei que além de me informarem mais sobre, as opiniões se dividiram: uns achavam que servia como forma de reconhecermos os sinais, uma forma da pessoa saber que está passando por aquela situação, outros acharam que aquilo só impulsionava as pessoas depressivas pois havia, segundo eles, acontecido uma glamorização do suicídio (e eu chocada com pessoas que acham bacana e exaltam bulimia e anorexia. Me lembro de ficar chocada que existiam grupos de meninas que se reuniam para falar sobre o assunto e davam nomes as doenças). Falou-se até que a série apoiava de certa forma o jogo Baleia Azul do qual se comentou muito primeiro nos grupos de família de Whatsapp e depois em todos os noticiários.
A verdade é que eu notei nas conversas que todos concordavam que o negócio ferra com a sua cabeça e seu espírito e te deixa de bad. Não é aquela bad de tristeza comum que você sente porque o personagem morreu, ou porque a série não acabou do jeito que você imaginava, ou porque na série aconteceu algo triste.
É porque o que aconteceu, já te aconteceu de certa forma ou de forma total e aquilo mexe com você.
Tem gente que abandona, eu particularmente não consegui largar Sharp Objects (Objetos Cortantes - Editoria Intrínseca). Lembro  de ter dado um “gás” na leitura, pois estou com muitas acumuladas e com esse negócio de saírem muitas adaptações de livros, eu prefiro ler antes de assistir, tô colocando esses na frente e a lista para ler só cresce, mas aí quando eu vi o quanto a Adora(mãe da protagonista no livro) tem as atitudes da minha mãe comigo... Ela é como minha  mãe, tão histérica quanto, tão preocupada com a reputação quanto, tão dominadora quanto...
Aliás, sem dar spoiler tem uma parte no livro (só assisti o primeiro episódio da série e estou esperando assistir ao segundo para poder fazer a resenha tanto do livro quanto da série) em que a protagonista vai  á cidade para poder fazer uma matéria sobre uma menina morta e outra desaparecida, em que ela está na igreja com a mãe e ela como repórter precisa falar com os cidadãos a respeito e a mãe dela na frente de todos a proíbe, diz que ela não pode e não vai fazer isso. E não é pelo lugar, ou pelas pessoas, por nada assim. Mas por ela, porque ELA NÃO QUERIA. E isso a deteve, como já deteve a mim tantas vezes. A Camille (a protagonista) tem 38 anos, não mora com a mãe faz tempo, mantém uma distância segura da família, mas quando esteve frente a frente com essa mãe, todo o domínio dela volta cerceando o que resta dessa mulher literalmente cheia de cicatrizes.
Eu me lembro de parar o livro e pensar em coisas que eu e Camille somos parecidas. E não estou falando só da mãe. A minha sorte é que nunca tive coragem de fazer nada contra mim fisicamente. Aprendi que você pode se ferir de várias formas.
Entrei de férias e retomei a leitura, e juro pra vocês, não consegui parar até acabar. Quantos livros que eu estava louca para saber o final, peguei para ler a noite na cama, no silêncio tranquilo da minha casa e não consegui ler nem três páginas direito.
Sei que com esse foi diferente: eu devorei as páginas restantes, sendo devorada por elas inclusive. Eu me via, ficava perturbada... Mas fui até o final.
Aliás, o final te dá duas pedradas.
Eu fiquei uns 20 minutos olhando pro teto pensando em como eu sobrevivi com um resto de sanidade mental para aguentar todo esse tempo e todo o tempo que eu ainda terei que aguentar.
Achei completamente justificável os surtos de qualquer pessoa, nessa ou em uma outra situação parecida.
Agradeci muito a Deus o entendimento para poder compreender essas coisas e poder me resguardar com o que eu tenho.
Mas Gillian Flynn me enlouquece assim desde Gone Girl (Garota Exemplar- Intrínseca) por que tanto o livro quanto o filme me deixaram chocada. Principalmente o livro que também foi lido em uma madrugada e eu fiquei muito, muito estarrecida mesmo.
Mas não estou dizendo que é certo. Não mesmo. Tá te ferindo, mas do que está te trazendo alegria? Tira da sua vida. Isso vale para tudo, fácil não é, mas vale o nosso esforço. Por que não tem razão de ser ficar passando por isso, sendo que você já passou sem ter escolha de dizer não, agora que você tem , opte por jogar esse fardo longe da sua vida, das suas coisas... De se deixar magoar todo novamente. Você merece todo respeito do mundo, e às vezes nossos interesses conflitam com nossa curiosidade. E de repente como pessoa que curte livros, séries, filmes etc. Você pode ter achado interessante, nada de mau nisso. Mau mesmo é continuar com algo que não vai lhe acrescentar nada. Porque essas coisas têm que nos somar algo, seja o que for.
Acredito que até produções ruins, tenham algo de bom para nós, mas não que nos façam mal. Isso é diferente.
Muitas das vezes estamos tão machucados que achamos que as feridas já curaram e somos fortes, mas acontece que assim como com a arma, alguém/ alguma coisa aperta o gatilho e somos atingidos em cheio por aquilo que já nos feriu.
Não ter medo de procurar ajuda, de dizer não ao que é tóxico para nós, aceitar que a tão falada superação só acontece quando realmente conseguimos superar, não pondo frases motivacionais nas redes sociais. Toda superação começa na sua mente e para ela são necessários tempo, carinho para consigo mesmo e respeito aos seus limites.
Respeite a si mesmo, sempre.

domingo, 15 de julho de 2018

A Estréia


Eu escrevo desde os sete anos. Sempre fui apaixonada. Acho que caí de amores pela escrita quando me toquei que amava ler e queria ser que nem Marcos Rey e Agatha Christie, meus primeiros amores na leitura. Eu queria porque queria ser como eles: ser tão impressionante e maravilhosa como eles.
Um dia só as redações da aula de Português não eram suficientes, a professora dava o número de linhas que tinha que escrever, pô! Eu era prolixa sem ao menos saber o que isso significava. Eu queria mais, eu queria poder falar de assuntos que os professores não pediam, eu queria falar de mim, dos meus amigos, dos meus pais, dos livros... sem número de linhas determinadas, sem ter tempo predeterminado poder escrever, tocar as pessoas como meus autores preferidos me tocavam.
eu escrevi um livro erótico/policial (isso antes dos 15. Precoce eu sei. E antes de 50 Tons de Cinza. Eu tenho vergonha). Lembro-me do nome das protagonistas: Ginger e Donna que, entre uma investigação e tiros em um beco escuro, davam altas trepadas muito loucas com seus companheiros de serviço no banheiro da Delegacia de Polícia (acho que isso foi quando eu comecei a ler  Sidney Sheldon, mas eu não vou ficar aqui culpando o Sheldão por eu ser pervertida desde a tenra idade). Eu sei que eu escrevia todos os dias, eu lembro de gastar muitas, muitas folhas de caderno. De não ter uma expressão numérica, mas os cadernos acabarem a olhos vistos, aliás olhos putíssimos da minha mãe que não entendia nada.
Eu terminava um[u1] , escrevia outro. Amava dar o que eu escrevia para as pessoas e ver a reação delas, ouvir "nossa, mas você escreve bem." Um pouco de ego com um outro tanto de amor foi me levando a continuar, sempre tinha alguma coisa pra dizer, pra pensar.
Como para todos, se tornar adolescente não foi fácil. Eu, ávida devoradora de livros, escritora egocêntrica compulsiva, parei. Simplesmente minhas visitas à biblioteca cessaram e passei a escrever menos linhas do que a professora pedia. 
Hoje não quero falar desse inferno que foi a minha adolescência: peitos de porn star, meus pais se separando, apaixonada por meninos que puramente me ignoravam, uma mãe que não sabia o que fazer e como me orientar com um corpo mudando, enquanto passava pelo processo de separação, a aluna nota 10 que virou a aluna que todo ano ficava de recuperação em Matemática... Enfim, foi um merdelê só e eu parei de ler. Não, não me entreguei às drogas como o protagonista do Livro Estudante, que se lançado na época de hoje, seria qualificado como modinha. Eu pura e simplesmente parei com aquilo e fui procurar sutiã reforçado, calças com numeração maiores, parar de usar trança e usar absorvente.
Mas , quando comecei a trabalhar em um telemensagem, uma amiga estava lendo... Crepúsculo. Eu fiquei curiosa pq ela ficava falando "ai meu Deus, como ele é lindo, como ele é doce, como ele aquilo, como ele isso". Curiosa que sou não aguentei, peguei o raio do livro e embarquei para Forks e como Bella  me apaixonei pelo leão . Se você espera que eu faça aqui um parêntese em que falo mal de Crepúsculo, perdeu seu tempo. Sou apaixonada até hoje. Se passa na TV eu vejo, até hoje não me decidi se sou Team Edward ou Team Jacob, gritei and chorei com aquele final falso, as partes de Renesmee com Jacob são minhas prediletas, fiquei muito puta com a Bella quando aquela vadia sentou na floresta pra chorar em Lua Nova, mais puta ainda dela querendo se matar e colocar o Jacob em seu círculo de confusão e burrice. Por que sim, ela é idiota. Sonsa. E o que eu conheço do feminismo hoje me esclarece que Crepúsculo é um filme muito, muito machista, que emburrece, mas não vou falar mal. Talvez seja apego emocional, talvez seja que no fundo no fundo eu queria que um cara com super poderes me protegesse (depois eu descobri que eu queria ter super poderes. Sou Marvete, mas meu herói predileto é o Batman. Das coisas confusas que vocês vão ver por aqui. Eu prefiro Crepúsculo que a Cabana que li na mesma época.
Outra coisa que decidi com  muita firmeza é meu estilo literário: passeei pelos dramas, autoajuda,  romances...  Quando aprendi que podia ler o que eu quisesse, não o que queriam, foi libertador. Sou reticente a isso até hoje. Até então tinha deixado a escrita pra trás. Ela não tinha conseguido recuperar... Mas eu comecei a andar com um povo nerd, assistir uns filmes e ler críticos de cinema, e vi que eu queria fazer aquilo: emitir opiniões, comentar detalhes como eles faziam, certos críticos tinham  esse efeito Agatha Christie em mim; me inspiram, me dão vontade de escrever, os pensamentos fervem, preciso colocar isso diante dos meus olhos com palavras. 
De tanto trelelê em um grupo de whatsapp de Star Wars e não ter medo de expor minhas opiniões contrárias (muitos dirão que sou hater, muitos dirão que é pra causar, mas sempre digo que é minha opinião. E me policio muito pra não virar discurso de ódio), uma página de conteúdo nerd me chamou para escrever pra eles. Os três meses mais felizes da minha vida.... A página foi morrendo por que ninguém conseguiu viver disso e todo mundo precisava correr atrás do seu, foi todo mundo ficando sem tempo. Eu fiquei.
Fiquei escrevendo uns textões no face. No whats. Na vida. Reprimida algumas vezes, chata outras. Não lida muitas. Mas aquele desejo de expressão latente no meu coração.
E aqui lá vou eu de novo... Se bem que já estou em funcionamento com minhas críticas no Cafeína Visceral (dá uma passadinha lá pra conhecer) mas aqui eu quero por tudo, esse cosmo que habita em mim de tudo que o humano é feito. Colocar aqui as minhas inspirações e amores, conversar com as palavras, já que todo mundo tem uma opinião desde o meu cabelo até o que eu faço, eu grito EIS ME AQUI, e me ponho toda a serviço da minha negra cabeça.
Estou aqui, num domingo, antes das minhas férias, com esse blog recém-nascido e cheia de coisas pra contar. Eu só queria me por em algum lugar, já que sinto que tenho tanto de tantas coisas em mim. De tudo que eu li, escrevi, passei... Acho que como todo mundo, né? Somos formados daquilo que vimos e vivemos, das estradas  que percorremos.
Aqui vai ser o lugar aonde vou expor isso tudo.
Mais um caminho.
Mais uma experiência pro futuro.