terça-feira, 14 de agosto de 2018

Amizades, tempo e desapego


Eu em algum lugar já escrevi que não sou uma pessoa saudosista. Acho que foi no facebook, mas o que eu quero dizer é que não sou aquele tipo de pessoa que fica lá toda sentimental vendo fotos antigas (aliás, as vezes as lembranças que o facebook mostram são de amargar) ou com conversas sobre um tempo que já se foi.
Eu não tenho essa de saudade, eu vivo o agora. Só me culpo por não planejar um futuro, ter um plano para o amanhã, para o próximo mês, para o próximo ano.
Mas o passado? É como diz a música “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Eu não tenho amigos do primário, do ginásio menos ainda. Pior época da minha vida, sei que a adolescência é uma época complicada, mas quando se é gorda a coisa fica pior. Dizem que o inferno é o seu pior  pesadelo, se for, o meu pesadelo  foi o ginásio. Pior fase da minha vida, tudo de ruim aconteceu, não sei como resisti. Dias difíceis na escola, mãe repressora e sem orientação nenhuma; cheguei até aqui com tantas cicatrizes que só se curaram por que eu fui me cuidando, fui entendendo muita coisa.
Quando acabei não olhei nem pra trás pra não virar estátua de sal. Os problemas da minha vida não acabaram, lógico, levei uma boa parte comigo, mas pelo menos aquele climinha  escolar maldito acabara. E eu nunca mais procurei ninguém, nem no advento das redes sociais. Com a maturidade vi que era uma pessoa que falava muitas coisas (AKA merdas) para poder me igualar ou ser superior ao grupo. Com certeza as pessoas viam que aquilo não era verdade, só historinhas, aquilo não me rendeu boa fama ou um lugar bacana na galera.
Me afastei e não procurei ninguém. Ninguém. O único problema é que eu não mudei nada daquela época pra cá: continuo com a mesma fuça redonda. Com exceção de uns mil kilos a mais, eu continuo a mesma. Aí sempre tem algum conhecido na rua que fica com aquela cara “eu acho que eu conheço essa menina de algum lugar” ou mais direto “aquela não é a Michele?”. Bem, eu não explico, troco de calçada, mexo no celular, olho pro outro lado, enfim, não é comigo.
Mas teve uma vez que não deu pra escapar. O foda que eu acho que ele também não queria parar, porque ele foi o crush, na época que não se usava a palavra crush (aliás nem lembro como se chamavam as nossas paixões nem 1995) e com certeza ele se lembra do dia em que fomos eu, ele e a que seria sua futura esposa no cinema e eu fiquei passando a mão na perna dele durante todo o filme, acariciando os pelos da perna dele... Ó, só de lembrar quero morrer.
Continuando, um dia ele estava vindo e eu indo e não teve como escapar e tal, aquele momento constrangedor que tudo que você quer é que se abra um buraco no chão ou um carro invada a calçada e te atropele só pra você não ter que falar com aquela pessoa, mas muito sem graça ele parou. Conversamos, bem não foi uma conversa, foi um interrogatório amistoso sobre a vida:
“Como você está?”
“Casou?”
“Tem Filhos?”
“Tá morando aonde?”
“Você lembra de fulano?”
“Você viu ciclano?”
Aquela coisa chata, não sei se fui eu que ofereci ou se foi ele que pediu, passei meu celular para ele, com promessas de ligar e marcar algo entre eu e a família grande e feliz que ele tem com a minha ex melhor amiga na época.
O convite pro rolê não veio, mas caí em um grupo de whatsapp da escola que eu estudava.
Mano do Céu, aquilo acabou comigo, eu fiquei putaraça. Mas quem disse que eu permiti isso? Quem disse que eu concordava com os termos? Quem disse que isso é bacana????
Pois muito que bem, quando vi estava no meio daquele interrogatório amistoso que falei acima, com pessoas que nem sabia quem era e nem queria saber, quando começou a sessão “lembra aquele dia...” Putz! Depois começou a sessão de fotos antigas... Mas o golpe final foi quando falaram VAMOS MARCAR UM CHURRASCO!
Eu saí. Se eu pudesse eu saía correndo fisicamente com medo desse povo me alcançar. Pretensão minha acha que em um grupo com muitas pessoas, notariam minha insignificante presença.
Eu não tenho saudades, eu não quero reviver o recreio narrado por meninas que me ofendiam enquanto eu me sentia péssima por ter que comer pão com presunto enquanto elas tinham conta na cantina da escola.
Eu não quero reviver aquele sentimento horroroso de não entender o porquê eu não podia usar meu cabelo solto como o das outras meninas.
Eu não quero reviver e notar que eu não tinha nem o corpo padrão e não agia como mocinha como as outras.
Eu só queria distância.
Eu passo pelas épocas da minha vida e não levo nada. Só as histórias pra contar que eu só conto quando lembram.
Eu sou uma pessoa apaixonada, mas essa paixão passa. Já tive amizades de jurar amor verdadeiro, amor eterno que hoje eu finjo que não vejo a pessoa no ônibus. Já tive amizades que todo mundo se juntava na casa de um amigo meu no domingo e ele entrava pra transar com o namorado dele e a galera esperava do lado de fora por que éramos muito “unidos”.
Tipo de amizade que a família dos meus amigos me chamavam pra tudo, de batizado a velório.
Quando a coisa começa a ferir a minha liberdade e meus sentimentos, eu pulo fora. Não digo que é de imediato, não... Eu sinto uma dor aqui, uma dor ali, um incômodo acolá e quando vejo tô saindo mesmo. Eu sou uma pessoa extremamente permissiva. Acho que tudo tá bom, tá bacana, eu mereço. O foda é quando você acorda e vê que a amizade não é aquilo e você não precisa disso.
Eu saio e geralmente é abruptamente.
Quando eu vejo não atendo mais o celular, mensagens finjo até que não tô em casa. Eu corro mesmo. Eu, particularmente com esse grupo de amigos, não aguentava mais a pressão pra poder sair, eu já estava cansada de gandaia e o povo insistindo e eu cada vez mais querendo ficar em casa e dormir. Ficar na minha. A amizade se tornou uma obrigação, algo que tinha que ser. Todo final de semana, às vezes durante a semana. Quase a semana toda. E eu falava que não estava afim. Que não queria. Mostrava desinteresse.
Haja dinheiro. Haja saco pra uns papinhos que não te somam...
O ápice foi um dia que um grande amigo meu na época (tínhamos até um apelido um para o outro, super pessoal e intransferível) me ligava constantemente do número dele, aí um dia me ligou de outro número e eu atendi:
“Oi Ximelly, por que você não está me atendendo”?
Fui uma canalha, eu sei. Fiquei muito sem graça e falei que retornava outra hora. Um dia, muito, mas muito tempo depois topei sair, numa espécie de revival com a galera. Ou o que restou dela.
O que era pra ser uma noite divertida (ou foi o que eu achava, porque tempos depois eu percebi que aquilo tinha sido uma armadilha) virou uma lavanderia: uma lavação de roupa suja, com direito a acusações e shade, muito shade mesmo. Os cadáveres que tínhamos no armário saíram pro bar.
Prometi a mim mesma que nunca mais, nunca mais sairia com eles. Eles criaram um dialeto próprio, um life style que eu não sei nem como fazer pra participar. Estranho que era tão fácil estar com eles ali, o tempo todo. A gente colaborava com gasolina e saia por aí, sem destino, só pra estar junto apertadinho no carro. Cantando Jay Vaquer. Tínhamos até música. Chegávamos em casa e ficávamos de papo no twitter, narrando os melhores momentos da noite... Como eu não bebo cerveja, sempre davam um jeito de me arrumar cachaça... Não consigo falar “ah não sei o que aconteceu”. Até porque aconteceu o tempo, a vida, as idas e vindas, compromissos, boletos, maturidade e a minha falta de paciência para algumas coisas.
E acho que tudo tem um tempo, uma fase. E a nossa havia acabado e eles demoraram para entender. Ou pra mim a nossa fase tinha acabado.
O legal é que o do grupo que todos diziam que era o mais filho da puta, foi o que entendeu isso perfeitamente: nos encontramos esporadicamente e agimos como se fôssemos sempre amigos, mas agora em tempos diferentes e que seguem a sua vida sem a cobrança do “vamo marcá”.
Eu passo como os dias, eu não ajo igual, não que não crie laços mas vou indo e quem tiver que vir que venha. Não vou culpar meus problemas psicológicos porque não sei se são eles, não fiz terapia o suficiente, mas é certeza que não tenho essa de recuperar o tempo perdido. Eu vou indo, vou caminhando.
Houve  pessoas do meu dia a dia, de quem eu cuidava mesmo, chamava de filha e tal, mas hoje eu não tenho mais contato. E não quero. Tantos merdelês emocionais que me esgotaram, tanto do meu espaço que foi consumido. Sou uma pessoa que não gosta de grude. Você não precisa falar comigo todo dia, não gosto de sair de galera, aliás quando vejo um grupo de adolescentes sempre penso em chamar a polícia e falar que é formação de quadrilha. Adoro andar sozinha: almoçar sozinha, ir aos lugares sozinha.  Demorei muito tempo para apreciar a minha própria companhia e depois que se faz isso é um caminho sem volta.
Não me cerca, não me aperta. Às vezes as pessoas fazem isso sem querer, mas eu sinto. E tem sempre um pra dizer “mas você não era tão amiga de fulano?” “não dizia que amava não sei quem”?”.
Antigamente sentia culpa, me achava fútil, mas hoje digo “na época eu amava sim, passou”.
Tenho problema com pessoas dependentes porque eu não sei compartilhar meus problemas nem com quem está ao meu lado. Acho que tudo é minha responsabilidade e não devo incomodar ninguém.
Acho que as pessoas devem ser autossuficientes, claro que tem horas que aquela amizade ajuda, mas as pessoas precisam se ajudar antes de buscar ajuda no outro.
Não estou falando que esse meu jeito é certo. Só estou escrevendo isso para dizer que acontece, tenho amizades de mais de 15 anos. O segredo é não haver cobranças, o tempo junto é importante, mas respeitar a individualidade do outro é importante. Eu não posso invadir o seu dia, só por que sou sua amiga.
É o tipo de coisa que me questiono, mas tenho muita certeza de que saudosista, eu não sou. Paro agora e penso que não tenho saudade de nada. Talvez seja por que sou ansiosa e o ansioso é louco pelo próximo minuto e sim, lembranças disparam a ansiedade de alguns, mas não a minha. Tenho muita certeza de que essas pessoas contribuíram para o que sou hoje, mas não dá mais. Acabou.
Com a consciência, sigo minha vida, pensando que posso fazer mais pelo meu futuro do que ficar pensando em “como era bom naquele tempo”.


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