domingo, 26 de agosto de 2018


Uma confusão literária...


Eu sou louca por Harlan Corben. Desde que li Confie em Mim e Não Conte a Ninguém alucinei nesse autor e comecei a comprar seus livros. Depois de muito tempo sem ler nada dele, peguei Seis Anos Depois escrito em 2013. Ó... o negócio vai indo, indo, indo e se enrola bem.
Com um protagonista entre o obstinado e o idiota, as 222 páginas vão apresentando coisas que em um primeiro momento não tem nada a ver, coisas irrelevantes à trama, mas quem lê esse tipo de literatura sabe que nada, nada mesmo deve ser deixado de lado. Detalhes são tudo. Só que o texto tem um tom dramático, com umas frases que são um misto de Cinquenta Tons de Cinza e Crepúsculo (e só deixando claro que eu  AMO Crepúsculo, digam o que quiserem) e tudo se embola, e não é tão bem trabalhado pelo autor, fica dando voltas e voltas, sempre batendo na trave quando vamos chegar perto de alguma resposta ou somos meio que “jogados” para longe dos fatos.
O problema que isso é um recurso usado diversas vezes e se torna cansativo, além do que um homem apaixonado acabando com a vida de um monte de pessoas por amor com inúmeras burradas, não é bacana.
Ou é?
Ó, eu não sei. Só sei que passei o livro sem me afeiçoar a ninguém. Tem tempo eu não shippo nenhum casal da ficção, todos são tão... Insossos. Tá, gostar do Edward e da Bella não me faz uma especialista em casais da ficção, mas o tal do Jake e da Natalie, oh complicação!
A história tem umas reviravoltas ótimas e tem personagens que no final se encontram, mas o meio é muito parado, o drama de Jake não convence e o ritmo é muito aquém do que se espera de Coben.
Apesar de ter o seu valor literário, inclusive com um vocabulário ótimo e uma tradução primorosa, a história não decola e parece que o autor cozinha a gente em banho maria para chegar no clímax e fazer tudo se encaixar e você dizer “aaaaaaaaaaaaaaahhhhh táááááááaáá”.
É bom, mas não é ótimo. Passei o tempo todo procurando uma razão para que o Jakie, mesmo com tantos avisos para largar toda aquela história de lado, continuar procurando Natalie e causando tanta confusão.
Tudo parece meio apressado e você olha e sabe que poderia ser melhor trabalhado.
O fim é super bem amarrado, tudo faz sentido e você nota que poderia render mais coisas, o desenvolvimento poderia ser maior. Mas é um final correto para tudo que se viu durante a leitura.
Achei que faltou mais desenvolvimento dos personagens. Um flashback talvez. Um capítulo para o passado, ou com mais informações sobre pessoas, fatos e coisas.
Mas é um final feliz e os românticos de plantão vão amar. Em alguns momentos me senti lendo Sidney Sheldon que eu amo de paixão aliás.
O tom era melodramático demais, choroso, aquela coisa que tudo que está acontecendo é para separar o casal protagonista e nada mais importa: nem a máfia, nem assassinatos, nem sumiços, nem uma instituição inteira. Fica tudo pairando no ar enquanto esperamos a história acontecer.
Não é uma leitura ruim, mas já li melhores. Mas não desistirei de Halan Corben. Tenho outros livros aqui, logo irei conferir outra história. De qualquer forma, vale a leitura.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Amizades, tempo e desapego


Eu em algum lugar já escrevi que não sou uma pessoa saudosista. Acho que foi no facebook, mas o que eu quero dizer é que não sou aquele tipo de pessoa que fica lá toda sentimental vendo fotos antigas (aliás, as vezes as lembranças que o facebook mostram são de amargar) ou com conversas sobre um tempo que já se foi.
Eu não tenho essa de saudade, eu vivo o agora. Só me culpo por não planejar um futuro, ter um plano para o amanhã, para o próximo mês, para o próximo ano.
Mas o passado? É como diz a música “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Eu não tenho amigos do primário, do ginásio menos ainda. Pior época da minha vida, sei que a adolescência é uma época complicada, mas quando se é gorda a coisa fica pior. Dizem que o inferno é o seu pior  pesadelo, se for, o meu pesadelo  foi o ginásio. Pior fase da minha vida, tudo de ruim aconteceu, não sei como resisti. Dias difíceis na escola, mãe repressora e sem orientação nenhuma; cheguei até aqui com tantas cicatrizes que só se curaram por que eu fui me cuidando, fui entendendo muita coisa.
Quando acabei não olhei nem pra trás pra não virar estátua de sal. Os problemas da minha vida não acabaram, lógico, levei uma boa parte comigo, mas pelo menos aquele climinha  escolar maldito acabara. E eu nunca mais procurei ninguém, nem no advento das redes sociais. Com a maturidade vi que era uma pessoa que falava muitas coisas (AKA merdas) para poder me igualar ou ser superior ao grupo. Com certeza as pessoas viam que aquilo não era verdade, só historinhas, aquilo não me rendeu boa fama ou um lugar bacana na galera.
Me afastei e não procurei ninguém. Ninguém. O único problema é que eu não mudei nada daquela época pra cá: continuo com a mesma fuça redonda. Com exceção de uns mil kilos a mais, eu continuo a mesma. Aí sempre tem algum conhecido na rua que fica com aquela cara “eu acho que eu conheço essa menina de algum lugar” ou mais direto “aquela não é a Michele?”. Bem, eu não explico, troco de calçada, mexo no celular, olho pro outro lado, enfim, não é comigo.
Mas teve uma vez que não deu pra escapar. O foda que eu acho que ele também não queria parar, porque ele foi o crush, na época que não se usava a palavra crush (aliás nem lembro como se chamavam as nossas paixões nem 1995) e com certeza ele se lembra do dia em que fomos eu, ele e a que seria sua futura esposa no cinema e eu fiquei passando a mão na perna dele durante todo o filme, acariciando os pelos da perna dele... Ó, só de lembrar quero morrer.
Continuando, um dia ele estava vindo e eu indo e não teve como escapar e tal, aquele momento constrangedor que tudo que você quer é que se abra um buraco no chão ou um carro invada a calçada e te atropele só pra você não ter que falar com aquela pessoa, mas muito sem graça ele parou. Conversamos, bem não foi uma conversa, foi um interrogatório amistoso sobre a vida:
“Como você está?”
“Casou?”
“Tem Filhos?”
“Tá morando aonde?”
“Você lembra de fulano?”
“Você viu ciclano?”
Aquela coisa chata, não sei se fui eu que ofereci ou se foi ele que pediu, passei meu celular para ele, com promessas de ligar e marcar algo entre eu e a família grande e feliz que ele tem com a minha ex melhor amiga na época.
O convite pro rolê não veio, mas caí em um grupo de whatsapp da escola que eu estudava.
Mano do Céu, aquilo acabou comigo, eu fiquei putaraça. Mas quem disse que eu permiti isso? Quem disse que eu concordava com os termos? Quem disse que isso é bacana????
Pois muito que bem, quando vi estava no meio daquele interrogatório amistoso que falei acima, com pessoas que nem sabia quem era e nem queria saber, quando começou a sessão “lembra aquele dia...” Putz! Depois começou a sessão de fotos antigas... Mas o golpe final foi quando falaram VAMOS MARCAR UM CHURRASCO!
Eu saí. Se eu pudesse eu saía correndo fisicamente com medo desse povo me alcançar. Pretensão minha acha que em um grupo com muitas pessoas, notariam minha insignificante presença.
Eu não tenho saudades, eu não quero reviver o recreio narrado por meninas que me ofendiam enquanto eu me sentia péssima por ter que comer pão com presunto enquanto elas tinham conta na cantina da escola.
Eu não quero reviver aquele sentimento horroroso de não entender o porquê eu não podia usar meu cabelo solto como o das outras meninas.
Eu não quero reviver e notar que eu não tinha nem o corpo padrão e não agia como mocinha como as outras.
Eu só queria distância.
Eu passo pelas épocas da minha vida e não levo nada. Só as histórias pra contar que eu só conto quando lembram.
Eu sou uma pessoa apaixonada, mas essa paixão passa. Já tive amizades de jurar amor verdadeiro, amor eterno que hoje eu finjo que não vejo a pessoa no ônibus. Já tive amizades que todo mundo se juntava na casa de um amigo meu no domingo e ele entrava pra transar com o namorado dele e a galera esperava do lado de fora por que éramos muito “unidos”.
Tipo de amizade que a família dos meus amigos me chamavam pra tudo, de batizado a velório.
Quando a coisa começa a ferir a minha liberdade e meus sentimentos, eu pulo fora. Não digo que é de imediato, não... Eu sinto uma dor aqui, uma dor ali, um incômodo acolá e quando vejo tô saindo mesmo. Eu sou uma pessoa extremamente permissiva. Acho que tudo tá bom, tá bacana, eu mereço. O foda é quando você acorda e vê que a amizade não é aquilo e você não precisa disso.
Eu saio e geralmente é abruptamente.
Quando eu vejo não atendo mais o celular, mensagens finjo até que não tô em casa. Eu corro mesmo. Eu, particularmente com esse grupo de amigos, não aguentava mais a pressão pra poder sair, eu já estava cansada de gandaia e o povo insistindo e eu cada vez mais querendo ficar em casa e dormir. Ficar na minha. A amizade se tornou uma obrigação, algo que tinha que ser. Todo final de semana, às vezes durante a semana. Quase a semana toda. E eu falava que não estava afim. Que não queria. Mostrava desinteresse.
Haja dinheiro. Haja saco pra uns papinhos que não te somam...
O ápice foi um dia que um grande amigo meu na época (tínhamos até um apelido um para o outro, super pessoal e intransferível) me ligava constantemente do número dele, aí um dia me ligou de outro número e eu atendi:
“Oi Ximelly, por que você não está me atendendo”?
Fui uma canalha, eu sei. Fiquei muito sem graça e falei que retornava outra hora. Um dia, muito, mas muito tempo depois topei sair, numa espécie de revival com a galera. Ou o que restou dela.
O que era pra ser uma noite divertida (ou foi o que eu achava, porque tempos depois eu percebi que aquilo tinha sido uma armadilha) virou uma lavanderia: uma lavação de roupa suja, com direito a acusações e shade, muito shade mesmo. Os cadáveres que tínhamos no armário saíram pro bar.
Prometi a mim mesma que nunca mais, nunca mais sairia com eles. Eles criaram um dialeto próprio, um life style que eu não sei nem como fazer pra participar. Estranho que era tão fácil estar com eles ali, o tempo todo. A gente colaborava com gasolina e saia por aí, sem destino, só pra estar junto apertadinho no carro. Cantando Jay Vaquer. Tínhamos até música. Chegávamos em casa e ficávamos de papo no twitter, narrando os melhores momentos da noite... Como eu não bebo cerveja, sempre davam um jeito de me arrumar cachaça... Não consigo falar “ah não sei o que aconteceu”. Até porque aconteceu o tempo, a vida, as idas e vindas, compromissos, boletos, maturidade e a minha falta de paciência para algumas coisas.
E acho que tudo tem um tempo, uma fase. E a nossa havia acabado e eles demoraram para entender. Ou pra mim a nossa fase tinha acabado.
O legal é que o do grupo que todos diziam que era o mais filho da puta, foi o que entendeu isso perfeitamente: nos encontramos esporadicamente e agimos como se fôssemos sempre amigos, mas agora em tempos diferentes e que seguem a sua vida sem a cobrança do “vamo marcá”.
Eu passo como os dias, eu não ajo igual, não que não crie laços mas vou indo e quem tiver que vir que venha. Não vou culpar meus problemas psicológicos porque não sei se são eles, não fiz terapia o suficiente, mas é certeza que não tenho essa de recuperar o tempo perdido. Eu vou indo, vou caminhando.
Houve  pessoas do meu dia a dia, de quem eu cuidava mesmo, chamava de filha e tal, mas hoje eu não tenho mais contato. E não quero. Tantos merdelês emocionais que me esgotaram, tanto do meu espaço que foi consumido. Sou uma pessoa que não gosta de grude. Você não precisa falar comigo todo dia, não gosto de sair de galera, aliás quando vejo um grupo de adolescentes sempre penso em chamar a polícia e falar que é formação de quadrilha. Adoro andar sozinha: almoçar sozinha, ir aos lugares sozinha.  Demorei muito tempo para apreciar a minha própria companhia e depois que se faz isso é um caminho sem volta.
Não me cerca, não me aperta. Às vezes as pessoas fazem isso sem querer, mas eu sinto. E tem sempre um pra dizer “mas você não era tão amiga de fulano?” “não dizia que amava não sei quem”?”.
Antigamente sentia culpa, me achava fútil, mas hoje digo “na época eu amava sim, passou”.
Tenho problema com pessoas dependentes porque eu não sei compartilhar meus problemas nem com quem está ao meu lado. Acho que tudo é minha responsabilidade e não devo incomodar ninguém.
Acho que as pessoas devem ser autossuficientes, claro que tem horas que aquela amizade ajuda, mas as pessoas precisam se ajudar antes de buscar ajuda no outro.
Não estou falando que esse meu jeito é certo. Só estou escrevendo isso para dizer que acontece, tenho amizades de mais de 15 anos. O segredo é não haver cobranças, o tempo junto é importante, mas respeitar a individualidade do outro é importante. Eu não posso invadir o seu dia, só por que sou sua amiga.
É o tipo de coisa que me questiono, mas tenho muita certeza de que saudosista, eu não sou. Paro agora e penso que não tenho saudade de nada. Talvez seja por que sou ansiosa e o ansioso é louco pelo próximo minuto e sim, lembranças disparam a ansiedade de alguns, mas não a minha. Tenho muita certeza de que essas pessoas contribuíram para o que sou hoje, mas não dá mais. Acabou.
Com a consciência, sigo minha vida, pensando que posso fazer mais pelo meu futuro do que ficar pensando em “como era bom naquele tempo”.


É preciso um pouco mais de calma


Eu lido com pressão desde que trabalho: metas, horários, dinheiro, correria... E eu sempre fico nervosa no processo. Quem não fica, não é mesmo? Mas acho que em 2016 atingi o meu auge. Nem eu estava suportando a minha falta de paciência.
Eu perdi o emprego às 16:00 horas e o recuperei às 19:00. Pois é. Saí de férias, quando voltei estava demitida. Mas aquelas coisas da vida (que eu gosto de chamar de Deus)... o menino do departamento de onde eu trabalho saiu para algo melhor. E no dia seguinte voltei para a mesma empresa, mas em outro setor.
Eu achava que tinha muita pressão aonde eu trabalhava...  Primeiro era a pressão da chefia, , depois a pressão de lidar com pais e alunos. O tempo todo. Correndo, fazendo, organizando... fora auxiliar professores. Fora lidar com todas as atribulações de um ambiente de trabalho.
Eu fui aprendendo a função, era como se eu estivesse calmamente (ou aparentemente calma) dentro de um furacão enquanto a minha vida girava nele, tipo quando tem umas árvores no espiral.
Pra ajudar, o setor estava mudando de chefia, estavam organizando a casa. Ou tentando. E eu que sou muito prestativa estava pegando tudo pra fazer. Não quer dizer que eu faça certo, mas no quesito profissional eu não tenho medo de me lançar de cabeça. Nem que isso cague o processo.
Sempre querendo agradar, ficar no emprego, eu fui pegando tudo, fazendo tudo e enlouquecendo no processo. Até por que eu estava sozinha. Mesmo tendo outras pessoas.
Sabe quando ninguém colabora? Pois é. Foi um dia que notei que não estava tirando hora de almoço e nem conseguindo me secar depois de fazer xixi. Eu notei que eu estava correndo. Sempre correndo. Com o lábio suado e cara de maluca, de quem está apagando um incêndio enquanto tenta aparentar calma.
Só que por fim eu não estava aparentando mais calma. Notei que estava soltando os cachorros em cima de quem fosse. E isso já não é legal normalmente, imagina quando você lida com público? Pois é, as reclamações começaram. E foram muitas, tantas que nem sei quantas vezes fui chamada a atenção. Meu problema não é a minha língua, meu problema é a minha cara.
Eu sou extremamente careteira e nisso eu tenho umas respiradas fundas sabe? Parece que vou tragar o mundo de uma vez só.
E o público quer ser bem tratado, recebido com sorriso e cortesia. O ser humano quer né?
Mas eu nem notava que estava fazendo aquilo. Estava sempre esbaforida, sempre irritada, cansada, nervosa, estourando. E quando você fica assim, você fica fraca. Vulnerável.
E eu fiquei. Foi aí que vi que estavam deixando ainda mais coisas pra eu fazer. Deixando mesmo. E eu surto. Surtando mesmo.
Pra completar, descobri que a minha companheira de trabalho não era assim tão legal quanto aparentava. Eu fui trouxa. Na verdade eu sou até hoje, mas naquela época era pior. Para você ter ideia, ela “me fez” trabalhar quase dois meses seguidos todos os sábados (quando revezamos os sábados) porque queria isso, queria aquilo... Fora sair cedo todo dia, fora voltar três horas depois do horário de almoço. Além disso, todo mundo a via assistir todas as temporadas de Vikings e Lost e não falava nada, mas o dia que resolvi tentar também e abrir um livro... Na hora desceram e me chamaram a atenção. Nunca mais tentei.
Você deve estar se perguntando “aonde estavam seus chefes?”. Eu prefiro responder que eles não estavam lá. Mas como já disse, acredito naquela coisa chamada destino que gosto de achar que é Deus.
Sim, levou tempo. Quase dois longos e penosos anos. Tive que aturar muita coisa calada, pois achava que fazer o meu, além de garantir o meu emprego, também me dava forças pra continuar. Os sapos que eu engoli ainda moram no brejo do meu estômago e desde então tenho uma gastrite de estimação.
Verdade é que estava com os nervos em frangalhos e fazendo mal o meu trabalho. Amando o que fazia, mas fazendo mal por estar tão esgotada e injustiçada que agia apenas por instinto.
Dá-lhe mais esporros. E eu ficava sem almoçar saindo muito mais tarde do que o meu horário.
E haviam outras pessoas também sobrecarregadas e aquilo criou meio que uma atmosfera pesada em que todo mundo sorria tenso.
Ah, e eu comecei a namorar também. E foi uma loucura, de um lado feliz com a minha descoberta profissional e com o lado pessoal, mas por dentro acordando todos os dias cansada e irritada sabendo que ia trabalhar sozinha e não dar conta de nada.
Até que eu comecei a surtar não no sentido literal, mas no sentido da doença. Sério. Acessos de raiva, bateção de porta e respiradas altas pelos corredores. Tudo era um martírio. Eu não ficava satisfeita nem quando executava bem o meu serviço.
Comecei terapia, mas não deu muito certo. Tomei medicação por um tempo (até a grana pra comprar acabar) e não sei até hoje se senti melhora.
Eu não melhorei. Comecei a chorar no banheiro, agarrada na beira da mesa. Comecei a perder o sono, comer compulsivamente em um dia e no outro comer nada.
Te contei que comecei a namorar né?
Pois é. Meu namorado é professor. O cara mais carinhoso do mundo. Ele é dedicado, amigo, doce, gentil... Enfim. Alunos grudam nele. Melhor, alunas. Ele é um imã. Já conversamos sobre uma benção/maldição que temos que as pessoas do nada abrem o coração para nós. Ele tem muito mais paciência que eu, por isso o índice de alunas na órbita dele.
Junta que você é ciumenta, insegura e está no pior momento emocional da sua vida, logo, brigas e mais brigas e mais brigas. Um dia estava com tanto ódio que desejei a morte de uma dessas meninas. Ele descobriu, ficou putaço comigo e quase que tenho que escrever aqui “na época eu tinha um namorado” porque eu tive que me controlar. Ou tentar me controlar.
Perdi muita coisa, o sossego inclusive. Não tinha horário para trabalhar, trabalhava o tempo todo, até quando não estava trabalhando. Levava o trabalho para o meu namoro, para a minha casa. Estava ficando doente. Fiquei, anêmica inclusive.
Até que... Consegui pedir umas férias. 30 dias. E eu sou uma pessoa muito da azarada. Se uma coisa ruim tiver que acontecer comigo, ela vai acontecer comigo, certeza, e elevada à décima potência. Mas dessa vez, consegui. Férias em julho. Para não atrapalhar. Para poder ter paz. Para não ficar preocupada com o trabalho.
E assim o fiz. Não tenho grandes pretensões quando se trata de férias. Eu só quero dormir, assistir séries, ler, comer e ficar atoa. Namorei bastante e retomei a escrita.
Foram férias ótimas: produzi, relaxei e não me preocupei com o trabalho. E tomei uma grande decisão: teria mais paciência, teria inteligência emocional. Iria respirar e pensar. Sorrir sem morder (dizem que eu sorrindo sou pior que rosnando. Mas aqui abro um adendo porque achei que quando estava pra entrar de férias estava melhor, sorrindo, sendo mais cordial, mas disseram que não, então não sei se isso confere). Eu iria tentar sorrir mais, ouvir mais. Tentar não ficar tão nervosa  com coisas que estão além do meu campo de ação. Não são minha culpa e eu não posso fazer nada. Pensar que preciso encarar, mas sem arrancar a própria pele e ficar vulnerável a tanta coisa e quase morrer a cada expediente.
Dramático não?
Pode ser pra você. Pra mim era rotina de segunda a sábado.
Eu voltei há duas semanas e tenho tentado. Tenho respirado a cada atendimento. Mantido minha garrafinha de água cheia, me alimentado (eu com fome fico bestial) me permitindo ir ao banheiro. Já disse que tenho respirado?
Sei que voltei agora, ainda tô fresca de férias, mas quero tentar um método de mentalizar a palavra paciência. O tal de jogar pro universo que eu meio que acredito, meio debocho. Mas quero pensar que vai dar certo. Por mim mesma. Pra não ficar levando bronca (triste é que já pegaram isso de mim e estão sempre observando e julgando). Mas tenho prestado atenção ao meu tom de voz, que naturalmente é meio agressivo, tô baixando a minha voz, olhando no olho das pessoas, tô até passando batom.
Andado devagar pelos corredores, sem movimentos bruscos. Sem ser rude comigo, nem com as pessoas. Respeitando meus nervos. Tenho tentado sair no meu horário, apaixonada pelo meu trabalho. Sim, eu sou. Com tantas experiências, com tanta coisa que tenho aprendido...
Sigo em frente na luta contra a fera que está adormecida em mim. Ela vai acordar, vou voltar a suar o lábio, mas tenho certeza que terei mais controle.