Eu lido com pressão desde que
trabalho: metas, horários, dinheiro, correria... E eu sempre fico nervosa no
processo. Quem não fica, não é mesmo? Mas acho que em 2016 atingi o meu auge.
Nem eu estava suportando a minha falta de paciência.
Eu perdi o emprego às 16:00 horas
e o recuperei às 19:00. Pois é. Saí de férias, quando voltei estava demitida.
Mas aquelas coisas da vida (que eu gosto de chamar de Deus)... o menino do departamento
de onde eu trabalho saiu para algo melhor. E no
dia seguinte voltei para a mesma empresa, mas em outro setor.
Eu achava que tinha muita pressão
aonde eu trabalhava... Primeiro era a
pressão da chefia, , depois a pressão de lidar com pais e alunos. O tempo todo.
Correndo, fazendo, organizando... fora auxiliar professores. Fora lidar com
todas as atribulações de um ambiente de trabalho.
Eu fui aprendendo a função, era
como se eu estivesse calmamente (ou aparentemente calma) dentro de um furacão
enquanto a minha vida girava nele, tipo quando tem umas árvores no espiral.
Pra ajudar, o setor estava mudando de chefia, estavam organizando a casa. Ou tentando.
E eu que sou muito prestativa estava pegando
tudo pra fazer. Não quer dizer que eu faça certo, mas no quesito profissional
eu não tenho medo de me lançar de cabeça. Nem
que isso cague o processo.
Sempre querendo agradar, ficar no
emprego, eu fui pegando tudo,
fazendo tudo e enlouquecendo no processo. Até por que eu estava sozinha. Mesmo
tendo outras pessoas.
Sabe quando ninguém colabora?
Pois é. Foi um dia que notei que não estava tirando hora de almoço e nem
conseguindo me secar depois de fazer xixi. Eu notei que eu estava correndo.
Sempre correndo. Com o lábio suado e cara de maluca, de quem está apagando um incêndio enquanto tenta aparentar calma.
Só que por fim eu não estava
aparentando mais calma. Notei que estava soltando os cachorros em cima de quem
fosse. E isso já não é legal normalmente, imagina quando você lida com público?
Pois é, as reclamações começaram. E foram muitas, tantas que nem sei quantas
vezes fui chamada a atenção. Meu problema não é a minha língua, meu problema é
a minha cara.
Eu sou extremamente careteira e
nisso eu tenho umas respiradas fundas sabe? Parece que vou tragar o mundo de
uma vez só.
E o público quer ser bem tratado,
recebido com sorriso e cortesia. O ser humano quer né?
Mas eu nem notava que estava
fazendo aquilo. Estava sempre esbaforida, sempre irritada, cansada, nervosa,
estourando. E quando você fica assim, você fica fraca. Vulnerável.
E eu fiquei. Foi aí que vi que estavam deixando ainda
mais coisas pra eu fazer. Deixando mesmo. E eu surto. Surtando mesmo.
Pra completar, descobri que a
minha companheira de trabalho não era assim tão legal quanto aparentava. Eu fui
trouxa. Na verdade eu sou até hoje, mas naquela época era pior. Para você ter
ideia, ela “me fez” trabalhar quase dois meses seguidos todos os sábados
(quando revezamos os sábados) porque queria isso, queria aquilo... Fora sair
cedo todo dia, fora voltar três horas depois do horário de almoço. Além disso, todo
mundo a via assistir todas as temporadas de Vikings e Lost e não falava nada,
mas o dia que resolvi tentar também e abrir um livro... Na hora desceram e me
chamaram a atenção. Nunca mais tentei.
Você deve estar se perguntando
“aonde estavam seus chefes?”. Eu prefiro responder que eles não estavam lá. Mas
como já disse, acredito naquela
coisa chamada destino que gosto de achar que é Deus.
Sim, levou tempo. Quase dois
longos e penosos anos. Tive que aturar muita coisa calada, pois achava que
fazer o meu,
além de garantir o meu emprego,
também me dava forças pra continuar. Os sapos que eu engoli ainda moram no
brejo do meu estômago e desde então tenho uma gastrite de estimação.
Verdade é que estava com os
nervos em frangalhos e fazendo mal o meu trabalho. Amando o que fazia, mas
fazendo mal por estar tão esgotada e injustiçada que agia apenas por instinto.
Dá-lhe
mais esporros. E eu ficava sem almoçar saindo muito mais tarde do que o meu
horário.
E haviam outras pessoas também
sobrecarregadas e aquilo criou meio que uma atmosfera pesada em que todo mundo
sorria tenso.
Ah, e eu comecei a namorar
também. E foi uma loucura, de um lado feliz com a minha descoberta profissional
e com o lado pessoal, mas por dentro acordando todos os dias cansada e irritada
sabendo que ia trabalhar sozinha e não dar conta de nada.
Até que eu comecei a surtar não
no sentido literal, mas no sentido da doença. Sério. Acessos de raiva, bateção
de porta e respiradas altas pelos corredores. Tudo era um martírio. Eu não
ficava satisfeita nem quando executava bem o meu serviço.
Comecei terapia, mas não deu
muito certo. Tomei medicação por um tempo (até a grana
pra comprar acabar) e não sei até hoje se senti melhora.
Eu não melhorei. Comecei a chorar
no banheiro, agarrada na beira da mesa. Comecei a perder o sono, comer
compulsivamente em um dia e no outro comer nada.
Te contei que comecei a namorar
né?
Pois é. Meu namorado é professor.
O cara mais carinhoso do mundo. Ele é dedicado, amigo, doce, gentil... Enfim.
Alunos grudam nele. Melhor, alunas. Ele é um imã. Já conversamos sobre uma
benção/maldição que temos que as pessoas do nada abrem o coração para nós. Ele
tem muito mais paciência que eu, por isso o índice de alunas na órbita dele.
Junta que você é ciumenta, insegura
e está no pior momento emocional da sua vida, logo, brigas
e mais brigas e mais brigas. Um dia estava com tanto ódio que desejei a morte
de uma dessas meninas. Ele descobriu, ficou putaço comigo e quase que tenho que
escrever aqui “na época eu tinha um namorado” porque
eu tive que me controlar. Ou tentar me controlar.
Perdi muita coisa, o sossego
inclusive. Não tinha horário para trabalhar, trabalhava o tempo todo, até
quando não estava trabalhando. Levava o trabalho para o meu namoro, para a
minha casa. Estava ficando doente. Fiquei, anêmica inclusive.
Até que... Consegui pedir umas
férias. 30 dias. E eu sou uma pessoa muito da azarada. Se uma coisa ruim tiver
que acontecer comigo, ela vai acontecer comigo, certeza, e elevada à décima potência.
Mas dessa vez, consegui. Férias em julho. Para não atrapalhar. Para poder ter
paz. Para não ficar preocupada com o trabalho.
E assim o fiz. Não tenho grandes
pretensões quando se trata de férias. Eu só quero dormir, assistir séries, ler,
comer e ficar atoa. Namorei bastante e retomei a escrita.
Foram férias ótimas: produzi,
relaxei e não me preocupei com o trabalho. E tomei uma grande decisão: teria
mais paciência, teria inteligência emocional. Iria respirar e pensar. Sorrir
sem morder (dizem que eu sorrindo sou pior que rosnando. Mas aqui abro um adendo
porque achei que quando estava pra entrar de férias estava melhor, sorrindo,
sendo mais cordial, mas disseram que não, então não sei se isso confere). Eu
iria tentar sorrir mais, ouvir mais. Tentar não ficar tão nervosa com coisas que estão além do meu campo de ação.
Não são minha culpa e eu não posso fazer nada. Pensar que preciso encarar, mas
sem arrancar a própria pele e ficar vulnerável a tanta coisa e quase morrer a
cada expediente.
Dramático não?
Pode ser pra você. Pra mim era
rotina de segunda a sábado.
Eu voltei há duas semanas e tenho tentado. Tenho respirado a cada
atendimento. Mantido minha garrafinha de água cheia, me alimentado (eu com fome
fico bestial) me permitindo ir ao banheiro. Já disse que tenho respirado?
Sei que voltei agora, ainda tô
fresca de férias, mas quero tentar um método de mentalizar a palavra paciência.
O tal de jogar pro universo que eu meio que acredito,
meio debocho. Mas quero pensar que vai dar certo. Por mim mesma. Pra não ficar
levando bronca (triste é que já pegaram isso de mim e estão sempre observando e
julgando). Mas tenho prestado atenção ao meu tom de voz, que naturalmente é
meio agressivo, tô baixando a minha voz, olhando no olho das pessoas, tô até
passando batom.
Andado devagar pelos corredores,
sem movimentos bruscos. Sem ser rude comigo, nem com as pessoas. Respeitando
meus nervos. Tenho tentado sair no meu horário, apaixonada pelo meu trabalho.
Sim, eu sou. Com tantas experiências, com tanta coisa que tenho aprendido...
Sigo em frente na luta contra a
fera que está adormecida em mim. Ela vai acordar, vou voltar a suar o lábio,
mas tenho certeza que terei mais controle.
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