Com livros que venderam quase 400 milhões de cópias, é o nono autor mais traduzido do mundo.
King é sempre citado quando o assunto é terror e suas
histórias fazem parte da vida de muitas pessoas e se tornou algo marcante. A
escrita tem uma assinatura, reconhecida de imediato pelos fãs. Com uma vida
pessoal que conta com a história de ainda criança ter presenciado
um acidente horrível em que um dos seus amigos ficou preso em uma ferrovia e
foi atropelado (que reza a lenda isso liberou o dark side do autor para suas
criações de terror, mas ele mesmo nega), e ter
sido alcoólatra e dependente químico – e por
isso não se lembra de ter escrito seus grandes sucessos como Cujo e It, tamanho
era o problema com essas substâncias. Fora ter sido atropelado por um motorista
distraído em uma de suas caminhadas: sofreu um traumatismo craniano, fraturas
múltiplas em uma das pernas, perfurações em um dos pulmões e foi submetido a
três cirurgias.
O que importa é que o cara tá vivão e sua obra sempre em
destaque inclusive no queridinho de todos, Netflix,
com os filmes 1922, O Nevoeiro, Conexão Mortal, Celular, Under The Dome, Pacto
Maligno, Cemitério Maldito, Christine O Carro Assassino e Jogo Perigoso
(Gerald’s Game), baseado no romance homônimo de 1992.
Numa tentativa de reacender o fogo do casamento , Gerald
(Bruce Greenwood) e Jessie (Carla Gugino) – que aliás está em outra empreitada
de terror de sucesso na Netflix A Maldição da Residencia Hill (que assim que
eu tiver um pingo de coragem assisto de venho comentar com vocês) – viajam para
sua casa de campo, num fim de semana que ninguém estará por perto, para realizarem
fantasias sexuais dele.
Quando está algemada na cama enquanto o esposo toma
Viagra...
Aí dá tudo errado!
O cara morre deixando Jessie presa a cama, enquanto revê
toda a sua vida ao lado de uma projeção de si mesma e do marido.
Sentindo dor, sede e desespero ela conversa consigo mesma e
o marido tentando achar razões para alguns porquês de sua vida. O filme tem
alguns gatilhos emocionais fortes e é um filme com muitos simbolismos e
verdades ditas na cara. Aquelas verdades que nos esquivamos a vida toda para
fugir da dor/realidade e ficarmos confortáveis em nossa bolha preguiçosa.
Apesar do filme se passar dentro do quarto o tempo todo e a
sensação de desespero vai crescendo de acordo com aquilo que descobrimos, em
nenhum momento o filme fica monótono e sentimos tudo: medo, repulsa, agonia e
tristeza.
Uma das grandes sacadas da obra é usar um monstro como
símbolo de todas as coisas que a protagonista passou, colocando uma forma em
todos os sentimentos dela, tal qual um bicho papão. Que gera a pergunta: se
todos os seus medos formassem um monstro, qual seria a forma dos seus medos?
O primeiro clímax é a cena dela
ficar fazendo careta pra tela, mas também traz o simbolismo de se livrar das
algemas que a machucam muito mais ficando nelas do que saindo. Mostra que vale
o sacrifício de ser livre.
Quando o filme recomeça, vemos que nem tudo é final feliz,
aliás muito provável que no final feliz o protagonista esteja catando seus
próprios cacos. E é isso que vemos desta vez. Mas mesmo catando cacos, ferida
por todas as verdades que mastigaram sua vida, Jessie segue fazendo o bem,
transformando tragédias em novos começos para outras pessoas.
E em um novo clímax, ela enfrenta seus medos, agora porque
quer! Porque quer se ver livre de uma vez, olhar nos olhos do Monstro e enterrar de vez seus traumas.
É um terror que pouco tem de irreal, vem para mostrar que
muitos monstros, terrores e a essência do mal nada tem a ver com o sobrenatural
às vezes. Muitas das vezes está no outro, na covardia do ser humano em machucar
alguém sem pensar nas consequências que
isso traz e sem contar que esses monstros nos acompanham a vida toda e muitas
vezes a gente se depara com outros e por termos que normalizar essas situações
continuamos nelas.
Dessa vez, e desde Scooby-Doo,
King deixa o terror clássico de lado para contar uma história forte em que os
monstros são as pessoas.