quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Stephen é o King


Com livros que venderam quase 400 milhões de cópias, é o nono autor mais traduzido do mundo.
King é sempre citado quando o assunto é terror e suas histórias fazem parte da vida de muitas pessoas e se tornou algo marcante. A escrita tem uma assinatura, reconhecida de imediato pelos fãs. Com uma vida pessoal que conta com a história de ainda criança ter presenciado um acidente horrível em que um dos seus amigos ficou preso em uma ferrovia e foi atropelado (que reza a lenda isso liberou o dark side do autor para suas criações de terror, mas ele mesmo nega), e ter sido alcoólatra e dependente químico – e por isso não se lembra de ter escrito seus grandes sucessos como Cujo e It, tamanho era o problema com essas substâncias. Fora ter sido atropelado por um motorista distraído em uma de suas caminhadas: sofreu um traumatismo craniano, fraturas múltiplas em uma das pernas, perfurações em um dos pulmões e foi submetido a três cirurgias.
O que importa é que o cara tá vivão e sua obra sempre em destaque inclusive no queridinho de todos, Netflix, com os filmes 1922, O Nevoeiro, Conexão Mortal, Celular, Under The Dome, Pacto Maligno, Cemitério Maldito, Christine O Carro Assassino e Jogo Perigoso (Gerald’s Game), baseado no romance homônimo de 1992.
Numa tentativa de reacender o fogo do casamento , Gerald (Bruce Greenwood) e Jessie (Carla Gugino) – que aliás está em outra empreitada de terror de sucesso  na Netflix  A Maldição da Residencia Hill (que assim que eu tiver um pingo de coragem assisto de venho comentar com vocês) – viajam para sua casa de campo, num fim de semana que ninguém estará por perto, para realizarem fantasias sexuais dele.
Quando está algemada na cama enquanto o esposo toma Viagra...
Aí dá tudo errado!
O cara morre deixando Jessie presa a cama, enquanto revê toda a sua vida ao lado de uma projeção de si mesma e do marido.
Sentindo dor, sede e desespero ela conversa consigo mesma e o marido tentando achar razões para alguns porquês de sua vida. O filme tem alguns gatilhos emocionais fortes e é um filme com muitos simbolismos e verdades ditas na cara. Aquelas verdades que nos esquivamos a vida toda para fugir da dor/realidade e ficarmos confortáveis em nossa bolha preguiçosa.
Apesar do filme se passar dentro do quarto o tempo todo e a sensação de desespero vai crescendo de acordo com aquilo que descobrimos, em nenhum momento o filme fica monótono e sentimos tudo: medo, repulsa, agonia e tristeza.
Uma das grandes sacadas da obra é usar um monstro como símbolo de todas as coisas que a protagonista passou, colocando uma forma em todos os sentimentos dela, tal qual um bicho papão. Que gera a pergunta: se todos os seus medos formassem um monstro, qual seria a forma dos seus medos?
O primeiro clímax é a cena dela ficar fazendo careta pra tela, mas também traz o simbolismo de se livrar das algemas que a machucam muito mais ficando nelas do que saindo. Mostra que vale o sacrifício de ser livre.
Quando o filme recomeça, vemos que nem tudo é final feliz, aliás muito provável que no final feliz o protagonista esteja catando seus próprios cacos. E é isso que vemos desta vez. Mas mesmo catando cacos, ferida por todas as verdades que mastigaram sua vida, Jessie segue fazendo o bem, transformando tragédias em novos começos para outras pessoas.
E em um novo clímax, ela enfrenta seus medos, agora porque quer! Porque quer se ver livre de uma vez, olhar nos olhos  do Monstro e enterrar de vez seus traumas.
É um terror que pouco tem de irreal, vem para mostrar que muitos monstros, terrores e a essência do mal nada tem a ver com o sobrenatural às vezes. Muitas das vezes está no outro, na covardia do ser humano em machucar alguém  sem pensar nas consequências que isso traz e sem contar que esses monstros nos acompanham a vida toda e muitas vezes a gente se depara com outros e por termos que normalizar essas situações continuamos nelas.
Dessa vez, e desde Scooby-Doo, King deixa o terror clássico de lado para contar uma história forte em que os monstros são as pessoas.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Odeio quando o personagem principal morre e a série morre junto



Narcos pra mim sempre foi ótima desde o primeiro episódio. Wagner Moura com seu Pablo Escobar com aquele andar de jeca, o olhar meio morto e o penteado duvidoso eram a luz da produção. Que também tinha seu mérito, um elenco de apoio afinado que garantia boas atuações e cenas de tirar o fôlego.
A série ganhou notoriedade levando quem estava com ela a participar de outras produções conhecidas, trazendo um hype para a produção na segunda temporada que contava o final do traficante mais procurado do mundo e quando acabou, muitos pensaram: e agora?
E agora a história é outra... Sem o parceiro Murphy (Boyd Holdbrook) que volta para os EUA (que na vida real antes ir adota a segunda filha na Colômbia), Javier Peña (Pedro Pascal) enfrenta o cartel que mais parece a Hidra da mitologia grega, que quando se cortava uma cabeça duas nasciam no lugar.
A quesito de curiosidade: O Javier Peña da vida real voltou para os Estados Unidos em 1994, um ano após a morte de Pablo e não se envolveu com a caçada ao cartel de Cali.
E tal como a Hidra surgem mais cabeças, aliás quatro: Gilberto Rodríguez Orejuela (Damian Alcázar), José Santacruz (Pêpê Rapazote que é português),  Hélmer “Pacho” Herrera (Alberto Ammann). Pacho era homossexual na vida real,  foi o último do Alto escalão a ser preso e foi morto em uma partida de futebol dos campeonatos que organizava na cadeia por um homem que se identificou como advogado, Miguel Rodriguez (Francisco Denis).
A verdade é que a história não anda. Ela não flui como nas duas temporadas em que temos um personagem encabeçando as histórias, mesmo que contraditório, tornava a narrativa mais interessante. Os quatro chefões do Cartel se bem trabalhados, se a apresentação de suas histórias acontecesse, enriqueceria a trama que patina em diversos momentos.
Aliás, se tem uma coisa que acontece em Narcos é dar aquela impressão de “agora vai”, os personagens mostram algumas nuances interessantes, mas ficam presos nas caras de malvados e mostram só a realidade do Cartel.
Com Pablo tínhamos um pouco da sua história pessoal, um pouco dele em cada ação, mesmo as terroristas. Ele deixava sua marca pessoal em cada ato porque ele foi apresentado ao público com aquele tipo de personalidade e foi ela que ditou o tom da história.
Tudo é muito raso, não vou entrar nem no mérito que nenhum dos caras tem o carisma de Pablo, as atuações estão dentro de um espaço limitado de quem só faz o que estão mandando.
Não tem mais as tocaiais, o “nem tudo é o que parece”, companheiros fiéis para se entrar na mata.
Tudo ficou no telhado com o corpo de Pablo.
O que se vê é um desfile de personagens que poderiam ter uma dimensão maior na tela mesmo sem o principal, que deu origem a série, com seu brilho, pois nada acabou com a morte dele. Tem uma continuidade justificada aí.
Quem coloca um pouco de adrenalina nas coisas é Jorge Salcedo (Matias Varela que é sueco) que leva uma vida dupla como agente infiltrado, ele é o responsável, junto com Peña, pela parte humana da luta contra o narcotráfico. Ficamos preocupados, torcemos, mas ainda sim falta alguém carismático que sendo vilão ou herói toque o público e faça a história do Cartel brilhar de novo.
O que acontece são episódios que giram em círculos e outros que acontecem coisas pontuais, mas não chegam nem aos pés dos acontecimentos das temporadas anteriores.
Mudar o foco como manobra para manter a obra, já que a premissa tinha começo, meio e fim, está certo, mas manter a qualidade de seus personagens é primordial para que continue sendo interessante assistir.
Narcos é uma obra inteligente que confiou demais no próprio enredo e não aprofundou o que podia apresentando novos personagens para ficar na memória dos amantes de séries. O que aconteceu foi uma temporada morna para fria que não vai deixar sua marca.
Com uma história poderosa nas mãos Narcos perdeu a oportunidade de consolidar mais personagens e criar uma expectativa para a quarta temporada já confirmadíssima.