Narcos pra mim sempre foi ótima desde o primeiro episódio.
Wagner Moura com seu Pablo Escobar com aquele andar de jeca, o olhar meio morto
e o penteado duvidoso eram a luz da produção. Que também tinha seu mérito, um
elenco de apoio afinado que garantia boas atuações e cenas de tirar o fôlego.
A série ganhou notoriedade levando quem estava com ela a
participar de outras produções conhecidas, trazendo um hype para a produção na
segunda temporada que contava o final do traficante mais procurado do mundo e
quando acabou, muitos pensaram: e agora?
E agora a história é outra... Sem o parceiro Murphy (Boyd
Holdbrook) que volta para os EUA (que na vida real antes ir adota a segunda
filha na Colômbia), Javier Peña (Pedro Pascal) enfrenta o cartel que mais parece a Hidra da mitologia grega, que quando se
cortava uma cabeça duas nasciam no lugar.
A quesito de curiosidade: O Javier Peña da vida real voltou
para os Estados Unidos em 1994, um ano após a morte de Pablo e não se envolveu
com a caçada ao cartel de Cali.
E tal como a Hidra surgem mais cabeças, aliás quatro:
Gilberto Rodríguez Orejuela (Damian Alcázar), José Santacruz (Pêpê Rapazote que
é português), Hélmer “Pacho” Herrera (Alberto
Ammann). Pacho era homossexual na vida real,
foi o último do Alto escalão a ser preso e foi morto em uma partida de
futebol dos campeonatos que organizava na cadeia por um homem que se
identificou como advogado, Miguel Rodriguez (Francisco Denis).
A verdade é que a história não anda. Ela não flui como nas
duas temporadas em que temos um personagem encabeçando as histórias, mesmo que
contraditório, tornava a narrativa mais interessante. Os quatro chefões do Cartel se bem trabalhados,
se a apresentação de suas histórias acontecesse, enriqueceria a trama que
patina em diversos momentos.
Aliás, se tem uma coisa que acontece em Narcos é dar aquela
impressão de “agora vai”, os personagens mostram
algumas nuances interessantes, mas ficam presos nas caras de malvados e mostram
só a realidade do Cartel.
Com Pablo tínhamos um pouco da sua história pessoal, um
pouco dele em cada ação, mesmo as terroristas. Ele deixava sua marca pessoal em
cada ato porque ele foi apresentado ao público com aquele tipo de personalidade
e foi ela que ditou o tom da história.
Tudo é muito raso, não vou entrar nem no mérito que nenhum
dos caras tem o carisma de Pablo, as atuações estão dentro de um espaço
limitado de quem só faz o que estão mandando.
Não tem mais as tocaiais, o “nem tudo é o que parece”,
companheiros fiéis para se entrar na mata.
Tudo ficou no telhado com o corpo de Pablo.
O que se vê é um desfile de personagens que poderiam ter uma
dimensão maior na tela mesmo sem o principal, que deu origem a série, com seu brilho, pois nada
acabou com a morte dele. Tem uma continuidade justificada aí.
Quem coloca um pouco de adrenalina nas coisas é Jorge
Salcedo (Matias Varela que é sueco) que leva uma vida dupla como agente
infiltrado, ele é o responsável, junto com Peña,
pela parte humana da luta contra o narcotráfico. Ficamos preocupados, torcemos,
mas ainda sim falta alguém carismático que sendo vilão ou herói toque o público
e faça a história do Cartel brilhar de novo.
O que acontece são episódios que giram em círculos e outros
que acontecem coisas pontuais, mas não chegam
nem aos pés dos acontecimentos das temporadas anteriores.
Mudar o foco como manobra para manter a obra, já que a
premissa tinha começo, meio e fim, está certo, mas manter a qualidade de seus
personagens é primordial para que continue sendo interessante assistir.
Narcos é uma obra inteligente que confiou demais no próprio
enredo e não aprofundou o que podia apresentando novos personagens para ficar
na memória dos amantes de séries. O que aconteceu foi uma temporada morna para
fria que não vai deixar sua marca.
Com uma história poderosa nas mãos Narcos perdeu a
oportunidade de consolidar mais personagens e criar uma expectativa para a
quarta temporada já confirmadíssima.
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